sábado, 10 de agosto de 2013

SEM HAPPY END


E já não tinha a esperança mínima
de voltar a ser que o fora.
Restou o silêncio a circundar
o ambiente denso
enquanto um breve sorriso
             (virtual?)
teimava em flutuar em sua face.

Da pouca psicologia que conhecia
e tentava implantar na sua vida
ainda revoavam frases soltas
a sua volta, que diziam:

“Vai em frente.
ainda há pelo que lutar,
no que acreditar,
pelo que viver”.

Psicologia comum
Psicologia superficial
Psicologia um tanto banal
que ela lia apenas
para minorar aquilo que a atingia
que a feria e fazia sangrar.

“Vou em frente...
mas vou chorando
reclamando
empurrando com meu corpo torto
o que não posso carregar”.

Otimismo antes não lhe faltava.
Agora, entretanto, o que sentia?
Nada de nada
Misto de vazio e cor:
queria levantar e prosseguir
o corpo queria ficar e desistir
queria o colorido da paisagem
a mente implorava pelo gris
da extenuante luta encefálica.

E o coração?
Este nem sequer pulsava.
Saudade
Alegria
Expectativa
Frustração
Decepção
Uma poção incolor para esboçar
o tumultuoso maremoto
de sua existência ambígua.

E eu não sei como terminar essa poesia.

Ela não é minha.
É de outro ser.
E ele não me disse
que estrada escolheria
que decisão tomaria

ou como sua vida acabaria.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

BLUES

Saiu, como de praxe, às 7h45min. Ia ouvindo uma música que não era da sua terra, mas que combinava com o clima. Ar frio, pouco sol, respiração produzindo fumacinha pela boca, ao entrar em contato com a atmosfera, nariz molhado.
Era inverno na cidade gris, um inverno como há muito não se sentia.
Estranho como o blues sempre fazia com que sentisse saudade da cidade em que morava, mesmo estando nela. Dava a sensação que ali era um canto onde todos podiam aportar e, mesmo assim, não seria possível permanecer por muito mais do que um século.
Essa era a duração dos sentimentos que todos desenvolviam em Rio Grande, como se tudo ficasse parado e movimentado ao mesmo tempo.
A pessoa parecia reproduzir-se no tempo, diversos clones de si mesmo, perambulando em diferentes estágios temporais, saindo sem sair, ficando sem ficar, partindo sem ir embora.
“É como um espelho ao contrário”, pensou, “essa cidade me deixa assim, com essa coisa esquisita de que eu já fui e voltei, mas não. Será que ainda estou de costas?”.
O blues repercute no coração. Sente falta de andar por Big River à noite, embora tenha feito isso ontem, ontem mesmo, ontem apenas.
“Tu não tem medo de andar a pé?”
“Tenho, claro. Mas não é possível evitar. A cidade me chama de vez em quando, como fazia quando eu era adolescente. E não é porque eu tenho coragem. Não. Ao contrário, a covardia que sinto é que me faz agir dessa forma perigosa.”
Cruza com pessoas pelas ruas úmidas que estão travando um combate com o sol mais forte que começa a surgir entre nuvens de cerração. Pessoas muito agasalhadas, com mantas, sobretudos, lãs e toucas, encolhidas com a respiração fria que vem dos pampas.
“Elas esqueceram como é frio aqui. Será que todos esquecem afinal?”
A música desliza por seu pescoço, bate no peito e volta ao cérebro. A vontade de caminhar aumenta, mas acaba chegando ao seu destino.
Levanta brevemente a cabeça em direção ao sol. Quer ‘lagartear’ um pouquinho ainda, antes de enfrentar os desafios que existem em viver nessa cidade de cais, mares, lagunas e ventanias estranhas.
Sente a batida do blues, o sol lhe dá uma inspiração breve para alguma coisa ainda indefinida. Sente algo parecido com bem estar, apesar de estar congelando.
Fecha os olhos para saborear a sensação. Nunca mais sentirá o coração tão leve.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

PÁGINA SOLTA DO DIÁRIO DE UM INSONE

Sem data e sem referências:
Estou com dor de cabeça e uma agulha enviada no olho (simbolicamente falando, claro). Tudo porque cansei do dia de inverno e ainda da aula de direção. Quem disse que fazer baliza, mesmo num carro com direção hidráulica, era fácil? Ledo engano. Fiquei desidratado de tanto dar voltas no volante. 
Ainda estou curtindo aquela dor de cotovelo que não sei de onde vem. Deve ser alguma paixonite adolescente que somente agora surtiu efeito. Sempre fui daqueles que sentem as coisas passados uns bons dez anos depois que ocorreram. Defeito de fabricação, com certeza, o que dizem é que isto era muito comum acontecer em quem é do modelo 7.6.
Naturalmente que os olhos querem fechar, mas o cérebro está hiperativo. Deveria gastar a adrenalina naquele jogo interessante pelo qual estou fascinado ultimamente. Mas a bendita agulha no olho está me desestimulando.
Tem um filme legal de ficção científica que está passando na TV (sim, eu tenho ele em casa e já vi mais de três vezes, mas eu gosto). No entanto, tem muita filosofia no meio e não estou a fim de sobrecarregar os neurônios apáticos que ainda sinto viajarem em meu cérebro.
Creio que irei dormir. Espero dormir mesmo, e não ficar rolando de um lado para outro pensando em mil e uma inutilidades, como, por exemplo, criar um soro que possa reverter os efeitos da morte em zumbis. Mas também não tenho grandes esperanças de que isso aconteça. Então já sei que amanhã encontrarei minha boca mordida (pelo lado de dentro, claro), em consequência das esquisitices com que vou me distrair da monotonia da noite.
Então só me resta isso ir dormir ou não, mas se pelo menos eu deixar o corpo cair num colchão que já não é mais tão confortável, embora sirva para me ajudar a não encontrar solução para os dilemas da sociedade, já vai ser um consolo.
Portanto, boa noite, querido vespário.*

*Isso foi somente para matar o tempo. Ou não.

sábado, 13 de julho de 2013

TRATADO DE NECROFAGIA

Esse corpo
Esse corpo sobre a mesa de necropsia
Esse corpo amorfo
repleto de formol
há muito já não é do cadáver
mas também não é teu

Mesmo assim
   tu o cortas
   tu o saqueias
   tu o dissecas
   tu o partes
para completar teu treinamento
embora nem sempre
acabes salvando o corpo dos vivos
que te buscam no posto ou no hospital

Esse corpo que tão calmamente cortas
e de onde escoa
          [se é que ainda escoa]
um sangue coagulado
esse corpo um dia
     já foi gente
     já sentiu
     já amou ou odiou
     já viveu
Agora está morto mas
           não é teu
           nem meu
           nem dele

É de ninguém
pois quem quer o cadáver abjeto do indigente
que perambulava pelas ruas
    [bêbado ou drogado ou apenas enlouquecido]?
Perambulava
e se vivia era porque respirava
Somente isso

Já estava morto há muito
Já fedia e repugnava
Já sofria a decomposição da morte em vida
porque não era mais reconhecido

Esse corpo sobre a mesa de necropsia
só é útil para o microscópio
pobre defunto perdido
Já era anônimo
E depois da utilidade prosaica para teu bisturi
cairá numa cova rasa onde até o tempo o esquecerá.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Last Of Us" e "Resident Evil: Revelations" - Quase mais do mesmo

Breve comentário:
"Last Of Us" é muito legal. Mas não tão assustador quanto prometeu. Além disso, impossível não ver alguma semelhança com Resident Evil, embora existam mais desafios em relação ao ambiente porque se passa numa cidade e é preciso coletar muita tranqueira para ter armas melhores. 
Resident Evil Revelations me surpreendeu um tantinho mais. Tem um pouco mais de sustos do que nos último games, monstros um tanto diferentes, bem como um navio enorme com um labirinto quase enlouquecedor, o que remete a Dead Space. 
Interessante que cada fase é jogada como um episódio, o que me lembra o primeiro game "The Wlaking Dead". Ainda não encontrei zumbis de verdade, o que é triste.
Já há notícia sendo divulgada que os criadores do Resident talvez lancem um sétimo game, que seria o último desta série. 
Entretanto, eles estariam pensando em relançar a série novamente, com o mesmo título, mas reescrevendo a história para que seja voltado para o 'survivol horror', como os fãs da franquia, de Cris e Jill gostam.*
Tomara que isso aconteça.
Por fim, apesar das semelhanças aqui mencionadas, a existência de alguns lugares comuns com os games deste tipo dos últimos anos, os dois jogos me agradaram sobremaneira. Quase não consigo largá-los.
Assim, mais do que recomendo os dois games.

domingo, 7 de julho de 2013

AEROPORTO

Atos inconsequentes de coragem tola criam um aeroporto onde outros pousam e decolam quando bem entendem levando o que bem querem e deixando apenas as cadeiras vazias da espera.
De mente em mente as ideias se atropelam são dementes essas ovelhas aéreas que arranham o piso da casa de partidas e chegadas. Atrelam a solidão as paredes que já o eram mas não vomitavam nenhum mal estar.
Ser solitário não é tão ruim quanto estar sozinho enquanto aves de metal vem e vão sem nem questionar se alguma outra coisa vai ocupar o espaço vago que ficou para trás.
Janelas abertas onde escapam burbirinhos sorrisos despedidas boas vindas enquanto o telhado do aeroporto cheio de buracos sente que vai ruir Quem se importa se o local sente ausências ou presenças? Na inconstante fidelidade de quem vem e de quem vai ninguém segue a rota do sentimento contundente que o posto de viagem segura para não chorar.
Dementes as mentes que se ficam não se compadecem se partem não se lamuriam por aquilo que deixaram aqui no espaço de todos os desencontros.
O aeroporto pretendia fechar mas já não tem mais anseio desta confusa companhia vazia por fim afastar.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A INSÓLITA CORAGEM

Deveria ser assim que nascem os heróis, de alguma situação banal ou extrema que conduz a pessoa a uma ação aparentemente insignificante ou de real importância.
Maria era uma garota comum; não era bonita, não era muito inteligente; não era vaidosa e muito menos conhecida por sua coragem. Ao contrário, em geral os colegas diziam que ela era até bem covarde.
Bastava alguém falar um pouco grosso, seja por querer ou por brincadeira, e Maria já se encolhia, fosse por medo ou apenas para preservar seu corpo miúdo de qualquer tentativa de aproximação. Ela detestava ataques físicos, tanto quanto detestava quando lhe passavam a mão, de forma indulgente, na cabeça.
Maria era quieta. Era tímida. Era nervosa e tinha um risinho estranho quando via que a pressão a sua volta queria sufocá-la.
Maria sufocaria com sua própria respiração se pudesse ou fosse possível. Mas o instinto de sobrevivência do corpo era maior do que a aparente molenguice da Maria.
Por isso ela não sufocava.
Ou melhor, Maria sufocava, mas não dizia.
Um dia ela estava ali, simplesmente, como de hábito, sufocando sem dizer. Como fazia algumas vezes, Maria estava sentada no cais ao lado da hidroviária, observando o sol refletir nas ondas da laguna, criando ilusões de ótica em que ela se via longe, muito longe, num lugar tranquilo onde poderia dedicar sua vida ao que gostava, embora ela nunca dissesse exatamente o que era.
A guria percebeu, mais uma vez, que uma parte desse seu recanto idílico (sim, embora não muito inteligente, Maria conhecia o significado dessa palavra) estava ruindo por causa das ondas malignas da laguna, que escorriam tudo em direção ao mar que se batia furioso com os Molhes da Barra.
Já que ele não entrava, a água doce entregava a ele os despojos que arrancava das margens da cidade gris. Mas a falta de preservação também fazia sua parte em construir a destruição do local e de muitas outras coisas em Rio Grande.
“Que droga! Aqui tudo desmorona, basta um ventinho mais forte”, a menina pensou sobre o município mais antigo do Estado.
O tempo e o vento, o vento e o tempo fazem sua obra diariamente. E a areia. Claro, a areia, que entrava nos olhos, nos ouvidos, na boca, até chegar ao estômago e sufocar algum coração menos atrevido.
Então Maria estava ali no cais, com os olhos doendo por causa da luz ofuscante e por alguma coisa que ela não sabia de onde vinha e estava meio trancada na garganta, enquanto tudo ia se apagando no transcurso do ponteiro do relógio citadino.
Foi quando ela entendeu o óbvio ululante, sobre sua insípida vida, e que estava passando vagarosamente diante de seus olhos empoeirados, que tudo aconteceu.
A calma fazia a ronda na hidroviária; as pessoas caminhavam apressadas para conseguirem realizar a travessia, em velhas lanchas, até a cidade de São José do Norte, do outro lado do canal do estuário mais perigoso do Estado. Dois PM’s tomavam chimarrão ao sol na frente do posto localizado no Prédio do Comércio.
Entretanto, somente Maria percebeu a sombra que que se deslocava em direção ao cais. Uma sombra cinza, arredia, com cabelos sujos e roupas pobres, que caminhava um passo de agilidade e desequilíbrio, enquanto carregava um saco plástico preto nos braços.
Somente Maria percebeu que o saco se mexia e não por causa do caminhar estranho da pessoa que o carregava.
E, novamente, somente Maria, com seus olhos repletos de poeira, viu quando a criatura atirou o saco na laguna, ficando a observar o mesmo flutuar por algum tempo. Depois começou a falar “já vai tarde, já vai tarde”, rindo de maneira esquisita.
“Meu Deus!”, ela pensou. O saco estava sendo levado pela correnteza, neste dia fraca, e mesmo assim se contorcia. Em seguida ele começou a afundar lentamente.
“O que tu fez, seu filho da mãe!”, Maria gritou. Ela não falava palavrões. Nunca. Achava de mau gosto e ofensivo. Já bastava os que ouvia em casa, sem razão, juntamente com alguns petelecos um tanto fortes e gratuitos.
“Já vai tarde, já vai tarde”, repetia a figura (era um homem), rindo seu riso insano, mas com um olhar de susto pelo grito que recebeu na cara como um tabefe para acordar para a realidade.
Os PM’s e mexeram uns centímetros quando escutaram os gritos, mas suas reações foram tardias.
Maria pulou na água quando o saco estava desaparecendo em meio ao escuro da água fria e fedorenta daquele ponto do cais.
O choque com a parede líquida a fez lembrar que ela não sabia nadar. Nunca aprendera.
“Então é o fim”, ela pensou quando conseguiu emergir desesperada para buscar ar, se debatendo por se saber burra e já morta.
Os PM’s correram para o cais e conseguiram segurar o cara que gritava e ria coisas sem sentido. Um deles se ajoelhou e gritou: “Me dá tua mão, guria”.
Mas ela só pensava que ia morrer e no saco, no saco e no seu caixão.
“E se for uma criança?”, refletiu entre uma respiração e um gole de água suja.
Ela parou de se debater; achou, de alguma forma, certa calma em seu interior conturbado. Conseguiu flutuar naquele caldo agridoce da laguna, como se faz quando se boia na praia. Respirou fundo e começou a submergir.
“Tu é louca!”, berrou o PM, começando a tirar o a farda e o equipamento para se jogar na água. “Chama os bombeiros, uma ambulância, qualquer coisa”, gritou para o soldado.
“mas e o cara aqui?”
“Deixa pra lá, a gente pega ele depois”, o PM mais experiente comandou, se atrapalhando ao tentar tirar o colete, o uniforme, as botinas, o cinto com a arma. Ele nunca fora salva-vidas.
Enquanto isso Maria chegou ao fundo da laguna. A profundidade ali não era das maiores, embora aterradora, por causa da semiescuridão da água lodosa. Ela apalpou umas pedras que sentiu por ali, resquícios do desmoronamento do cais, e foi se agarrando nelas para que a correnteza não a levasse.
Então ela viu. O saco estava ali, contido por dois pedaços de pau, restos de estacas de outro século, que serviam para amarrar as pequenas canoas dos pescadores de antigamente.
O volume ainda se mexia. Maria conseguiu esticar o braço e puxá-lo para si e conseguiu se impulsionar para cima.
Ela voltou a ver a luz do dia outra vez, enquanto o PM ainda tirava a segunda bota para pular na água.
Maria respirou fundo, tossiu, engasgou com a água que entrava na sua boca antes que ela pudesse impedir. Tossiu de novo e respirou.
A correnteza começou a puxá-la, dessa vez inclementemente.
“Ah! Não. Agora não”, ela pensou começando a se apavorar novamente, enquanto o saco se debatia e gania.
Enfim o PM resolveu pular na água com bota e tudo. Puxou a menina pelos cabelos e a arrastou até a beirada do cais.
“Segura ai, moleca, que já vem ajuda”, ele disse no momento exato que o colega voltava dizendo que a ambulância já estava chegando, como, de fato, se podia ouvir pelas sirenes. Que explodiam no ar esfumaçado de Big River.
Eles ajudaram a guria a sair da água, enquanto ela segurava o saco com firmeza. Se o que estava ali não morrera afogado, bem poderia ter morrido pela forma como Maria o segurava entre os braços congelados.
A dupla de brigadas conseguiu arrancar o volume que esperneava desesperado das mãos da menina, para evitar que ela agora o matasse. “E se for uma criança?”, ambos pensavam amedrontados.
O maltrapilho ria e saltava, enquanto dizia, batendo palmas:
“Não foi tarde! Não foi tarde!”.
Eles rasgaram o saco com sofreguidão, esperando que não fosse tarde demais, nem para a menina, nem para a criatura que ali estivesse, nem para eles.
Como dois policiais não notaram aquela movimentação toda a tempo?
Quando o plástico foi arrebentado os dois homens viram duas bolinhas de pelo ali dentro: um cãozinho e um gatinho, que gritavam em desespero.
Os PM’s se sentaram no chão, cansados, nervosos e irritados.
A ambulância estacionou ao lado deles e correu para os restos do saco. Quando os atendentes viram o conteúdo, fecharam a cara e disseram:
“Foi para isso que nos chamaram com tanta urgência?”
“Sim e não”, disse o sargento. “É preciso dar uma olhada na louca que pulou no mar pra salvar essas coisas”.
Enquanto Maria era examinada, o PM perguntou:
“Tu sabia que o saco só tinha dois bichos dentro?”
“Não, não sabia. Mas eu teria pulado mesmo que soubesse”, ela respondeu com uma firmeza estranha no olhar.
O sargento sacudiu os ombros e pensou: “Tem louco pra jogar bicho no mar e tem louco pra salvar. Fazer o que?”
“A guria está bem, só um pouco molhada. Talvez sofra um pequeno choque devido a estripulia que fez”, disse o enfermeiro. “Melhor ela ir pra casa e descansar”.
“Nós levamos. Assim eu já vou ter uma conversa com a mãe dela”. Respondeu o sargento.
“Como se ela fosse dar bola”, pensou Maria.
“E os bichos, sargento?”, perguntou o soldado.
“Sei lá. Deixa eles aí. Pode ser...”
“Não! Eu vou levar dos dois”. Maria se intrometeu, decidida.
Os PM’s sacudiram os ombros e levaram a guria, junto com os filhotes, pra casa dela. O sargento teve uma longa conversa ao pé de ouvido com a mãe de Maria, que só dizia:
“Uhum. Sim, senhor. Não, senhor. Uhum. Ela sempre foi assim meio estranha. Uhum. O senhor tem razão, seu brigada”.
Quando os policiais militares foram embora, a mãe disse que os bichos eram responsabilidade exclusiva de Maria. Depois saiu, disse que ia trabalhar. Maria pensou: “Sei bem onde tu vais”.
Ela cuidou dos filhotes e se deitou. Precisou dormir quase dois dias para se recuperar do choque e cansaço. Sua mãe, aparentemente, tinha parado muito pouco em casa. Infelizmente, os bichinhos não eram desmamados e foram encontrados mortos por Maria, na caixinha com trapos em que ela havia colocado eles.
Ela chorou pelos filhotinhos como teria chorado pelos seus próprios filhos.
Talvez fossem.
Depois disso sua vida voltou quase ao normal.
Maria não foi entrevistada. Ela não virou notícia de primeira página. Ninguém na escola soube o que ela fez.
Nem sua mãe deu importância. Ao contrário, às vezes debocha dela.
Contudo, a menina já não é mais a mesma. Ela encontrou uma forma de ajudar algumas crianças que eram tão incomodadas pelos colegas quanto ela, mas sem precisar usar de brutalidades.
Seu corpo ainda é pequeno, mas sua alma cresceu um pouquinho. Os colegas perceberam isso e começaram a deixar a guria estranha em paz mais seguidamente, assim como alguns de seus protegidos.
Volta e meia Maria vê o vagabundo que atirou os filhotes na laguna perambulando pela cidade.
Ela o ouve murmurando: “Ainda não é tarde! Ainda não é tarde”, com um brilho divertido e esperançoso nos olhos esbugalhados.
Às vezes, Maria dá um lanche para o homem que ela entende perdido. Ele a observa, meio desconfiado. Então parece reconhecê-la e pergunta:
“Já é tarde?”
Ela apenas diz:
“Não, ainda não é tão tarde”. E vai embora, enquanto ele sorri, come o pão e toma o café que ela lhe deu.
Maria sabe que se tornou uma heroína anônima, talvez a salvadora unicamente de seu próprio mundo. Mas isso, por vezes, reflete no mundo dos outros, embora possa parecer um reflexo insignificante.
No entanto, talvez baste isso apenas.
Talvez os atos de insólita coragem, e seus pequenos reflexos, sejam os mais importantes.