domingo, 28 de abril de 2013

A GALÉ DO AFORTUNADO


A miséria...
A miséria acompanha os passos trôpegos dos inquilinos desta história.
As cancelas foram abertas por um expert crente que sua sanidade é maior que a dos demais seres.
A miséria desandou por entre as colinas e soterrou a prudência de quem julga aqueles que digladiam por fatos derradeira e fatidicamente cotidianos.
“Vigia! Quem és tu que dizes que velas pelos desvalidos, mas não vês as lamúrias de quem anda por esta estrada deserta?”
De uma viela surgem olhares lacrimejantes, enquanto os corpos prisioneiros são arrastados ao desabrigo da tempestuosa distância de quem acredita que sua verdade é suprema.
Os miseráveis e os dementes nunca serão ouvidos, mesmo quando não mentem.
“Vigia! Quem és para julgar outra mente quando tu a tem tão imprudentemente desprovida da experiência de além das trincheiras que te protegem das ruas?”
Verdugos cambaleiam no convés da galé, empunhando seus chicotes e amarras.   Quem são os que a miséria açoitará?
“Vigia! Tu és o afortunado, mas tua práxis te torna um dos celerados. Que decisão tua realmente poderá salvar o desgraçado?”
Remam, mutilados, os decadentes entes que proliferam nas vias e parques da cidade gris. Destituídos covardemente de afeto e segurança, buscam o consolo inexistente nos afagos da chuva ácida e triste que desaba de abrigos de papelão capengas e estapafúrdios. 
E gritam confusos e embrutecidos: “Vocês não nos protegerão!”
“Vigia! Tu já não devias dormir! Tua culpa sangrará das chagas nos teus pulsos, que nem o tempo, nem a morte poderão curar!”

domingo, 21 de abril de 2013

THE HUNTER



A batida sobre a carne se repete ininterruptamente. O rock pesado rebumba pelas caixas de som, que estremecem com o volume e o impacto da música.
O martelo cai sobre a carne sem piedade. A música vibra enquanto ele se balança freneticamente em frente ao espelho da cozinha. 
A carne está quase no ponto. O sangue escorre em filetes aguados. Com certeza a refeição, embora violenta, será excelente hoje, principalmente depois do que teve que fazer para obtê-la.
Mistura de sal, cominho, para quem gosta um pouco de ketchup, a frigideira está quase no ponto. 
Sim, sente a saliva tomar conta da boca enquanto o cheiro de óleo vai se espalhando pela casa isolada. Foi difícil, mas o prazer será imenso, o desafio exacerbou a fome.
A música entranha sua mente, a batida é quase impossível de não acompanhar. Ensaia uns passos desajeitados na cozinha minúscula. Está contente. Os restos do corpo ficaram em meio a mata. Mas hoje seu desejo e fome serão saciados.
A carne chia na frigideira. 
O aroma empesteia a casa, sua cara e suas roupas. Mas, ah! Como é bom sentir esse cheiro novamente. Quanto tempo fazia? Três, quatro anos?
Não importa. Agora ele fez o que era preciso.
A porta range, alguns passos saltitam pela sala do casebre. 
"Hoje tem carne" duas vozes infantis gritam entusiasmadas. Ele não pode conter o sorriso de satisfação que isso lhe traz. Somente isso lhe importa. O que teve que fazer...
Bife feito na hora, acompanhado de batata frita e uma coca cola obtida com muito custo, assim como a carne. Foi difícil, mas aí está. As crianças irão comer a melhor carne de suas vidas hoje. Isso é o que lhe dá forças pra prosseguir. 
Se tiver que repetir tudo de novo amanhã, que assim seja.
O corpo na mata será encontrado, mas ninguém irá capturá-lo. Ele soube apagar seus rastros, como bom caçador que era, embora há algum tempo não pudesse praticar. Mas isso é coisa que não se esquece, mesmo depois de pagar a punição pelos atos do passado. Era isso ou ver as crianças continuar a minguar de fome. Agora, pelo menos, haviam algumas partes apetitosas na velha geladeira.
Pelo menos, por alguns dias elas poderiam comer. E ele, ele fazia o que era preciso, admitindo apenas para si que a caçada sempre lhe trazia uma dose de adrenalina maior do que seria de se esperar. Mas é que as presas, embora indóceis e ágeis, não eram páreo para sua habilidade e força. 
Ele sabia desde sempre como matar.
O cheiro se espalhou pela casa, as crianças comem com sofreguidão, enquanto ele observa tudo com olhos frios e satisfeitos. 
O rock retumba e ele sente algo parecido com felicidade.
Na mata, um filhote chora desamparado ao lado do corpo sem vida e mutilado de sua mãe.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

DIA D (SUBVERSÃO)

Hoje é dia de subversão.
Alguns poderiam dizer que isto é um reflexo do atentado nos EUA, mas não. Preciso admitir que não. Esta espécie de coisa não faz minha praia. Além disso, as vítimas irão prantear muito mais tempo do que as feridas ou cicatrizes poderão perdurar. Não haverá cura para a chaga aberta nos inocentes ou culpados.
Todos irão amargar sequelas. Isto é um fato totalmente irremediável.
Não. A subversão minha é de outra monta, espécie, gênero, classe, grau ou qualquer outra forma de identificação de gestos de resistência.
Minha subversão não é violenta, contudo, impossível dizer que é pacífica. As vezes, o silêncio é o ato mais violento que se pode praticar.
Brota no ar desta cidade um que de idiossincrasia que, me perdoem a rima despropositada, ou a aparente analogia ruim, que me causa uma azia terrível, terrível, nem sei bem como expressá-la, curá-la ou meramente minorá-la.
E por isso estou sempre em estado de choque.
O dia se amontoa na esquina e me deixa com a sensação de que nada fiz, embora os saltos de minhas botas estejam bastante gastos e as pernas estejam doloridas.
Os olhos doem com a luz linda que incendeia o céu, mas agrava minha fotofobia. Mas a cidade não dá trégua, ela quer sempre mais, ela cobra sempre mais.
O sentimento de que não me identifico com nada nem ninguém, ou vice-versa, já me atravessa a mais de uma década, mais ou menos. É a pena por ter um universo habitando minha vida, sem que ele possa ser totalmente controlado ou controlar-me de vez.
Não. Com certeza eu não sou daquelas pessoas que vivem crises existenciais cotidianas. Ao contrário, eu gosto mesmo é de calmaria e silêncio, ao fundo uma música suave repercutindo no ambiente, tudo temperado por umas poucas e breves experiências inusitadas para ajustar o salgado da vida, melhor, o agridoce da minha existência. 
No entanto, apesar do meu gosto pessoal, algo teima em me desviar da normalidade e me levar a percorrer os mais difíceis caminhos para chegar ao mesmo lugar que as pessoas em geral chegam.
Não, não é o destino que bate à minha porta.
Não creio nele.
Na realidade, o mais certo é que o acaso conjugado com as coincidências do cotidiano causa-me uma reação, produzindo um resultado que, no geral, eu prevejo, mas deixo ocorrer naturalmente, por desatenção ou descaso.
É que a vida tem dessas situações: ela te põe diante do monstro ou do espelho e tu tens que escolher entre enfrentar ou se refugiar num lugar que não existe.
Eu ainda teimo em optar por arrastar o monstro comigo para outra dimensão. Se tenho que sofrer o exílio, que não seja só, que seja com meu inimigo capital. É matar ou morrer, morrer ou matar e depois ser morto, como disse um personagem de uma série famosa.
Para os amigos a benesse de não ter que adentrar no submundo dessa viagem.
Portanto e apesar do conhecimento prévio das escolhas que posso fazer ou deixar de fazer, em reação a vida que flutua no horizonte, eu prefiro subverter a situação. Sempre tive desses sentimentos subversivos: se eu não posso com eles, eu os reviro, mesmo que acabem me deixando com a mente dando voltas e um enjoo de matar qualquer pessoa mais sensata.
Eu vou subvertendo as consequências, as reações, as respostas, as emoções. Eu finjo que elas estão longe ou perto e, assim, posso ao menos tentar enganar o monstro, esse que vai comigo e que sempre acredito que não vai me vencer, pelo menos mais uma vez, embora às vezes...
Por isso, hoje é dia de subversão. 
De espatifar o espelho, viajando para um lugar onde somente eu e meu inimigo especial conseguiremos permanecer.
É o momento de subverter as sensações e sofrear os ímpetos mais doces ou mais amargos. De chorar, embora entre sorrisos tímidos.
Hoje, hoje é mais um dia D.


sábado, 23 de março de 2013

AVISO


A interação realizada pela ilustradora Lidiane Dutra com meu texto "Retórica", foi redirecionada para a coluna 'ARTE'.

Peço a gentileza aos seguidores e leitores que desejam comentar esta postagem que o façam na referida coluna.

Obrigada.

Adriane

OS QUÍMICOS


“Oi mãe, eu ainda to aqui dormindo enquanto a senhora me olha aí de cima como se eu fosse um preguiçoso. Mas é bom te ver aqui.
Sabe como é, é a dose do químico diário. Mais uma vez ela ta mudando tudo. Foi preciso. Mas aí o sono me pega por uns dias e eu fico imprestável.
Ok, mãe tens razão. Tais aí me olhando como eu fosse uma mula empacada, com uma vida empacada, como sempre foi desde que tu me pariu. Desculpa, desde que a senhora me deu a luz. 
Eu sei que a senhora é daquelas ‘respeito é bom e eu gosto’ e dessas palavras que falam de eventos naturais, embora sangrentos, como se fossem poesia, etc e tal. Então, assim sou desde que nasci. Empacado, lento, devagar, mesmo antes do químico me conhecer e fazer parte dessa minha vida de luz e sombra, mais sombra porque, apesar do teu desgosto, eu preciso muito dormir.
Sim, mãe é porque eu continuo tendo aquelas visões. Mas já melhorou bastante. Não eu nunca sonhei que estava matando a senhora. Eu estava matando ‘ELA’, a Lâmia, aquele bicho da Grécia...
Sim eu sei que é apenas uma história, mas as vezes, só as vezes... Tudo bem a senhora não gosta disso. Vou parar de falar nela. 
Sim, eu sei que ela não existe e que é ridículo um homem da minha idade achar que ela vai me matar.
To curtindo tua visita, sabe? Tava com saudade, embora a senhora não fale muito, ou eu não possa escutar tua voz meio esganiçada muito bem porque mais uma vez estou entorpecido para ajustar a dose diária ao meu ciclo natural. Mas é bom te ver firme e forte véia, mais do que eu na verdade, como sempre.
Como? Eu disse ‘véia’? Não não quis dizer que a senhora aos 65 anos é uma velha é só uma gíria sabe? Ah! Esqueci o ‘respeito...’ e que a senhora nunca gostou de gírias. Tudo bem! Mas não precisa bater na minha boca, já passei dessa fase.
Ok,ok, desculpa, os pais têm o eterno direito de repreender e educar o filhos, mesmo que eles já tenham 30 anos. Desculpa, aí, não vou repetir. 
Posso voltar a dormir agora? Não? Ok.
Mas tudo isso é culpa desse sono maldito e dessa dose que ontem tomei e hoje irei repetir. Quem sabe a amanhã eu já vou estar bem e aí quando a senhora chegar poderemos conversar melhor.
Não? A senhora não poderá vir amanhã? Nem depois de amanhã? Talvez só no mês que vem? Ok, fazer o que. Eu entendo é difícil, diferente de mim a senhora tem responsabilidades e afazeres, etc. e tal.
E por falar nisso, como está o Jorge e a Lica e o tio Sam? Sim eu sei, mãe, todos são uns vagabundos, imprestáveis, nenhum deu certo na vida. Somente a senhora conseguiu tudo, afinal fez tantos sacrifícios...
Não, não estou debochando eu concordo com a senhora. Olha só é só o químico que me dá essa cara de sono misturada com um tipo de riso maníaco que minha boca mole deixa meio torto e escondido.
Tudo bem, tudo bem. Eu sei que a senhora entende, que não é burra. Ok. Vamos mudar de assunto.
O que? Já passou uma hora desde que a senhora chegou ao meu quarto? Como é que eu nem vi o relógio passar? Porque eu fiquei dormindo, babando e acordando a maior parte do tempo? 
A senhora está enganada apenas fechei os olhos para descansar a vista e ouvir melhor o que a senhora tinha pra contar.
É pra repetir o que a senhora disse? Porque tá achando que eu não escutei? A senhora acha que eu sou surdo? Pateta? Desligado? Não sou não a senhora que sempre acha que eu não ligo pra nada.
Não eu não estou gritando, a senhora que sempre foi muito sensível quando a gente falava um pouco mais alto. Não não estou dizendo que a senhora é mentirosa e muito menos manipuladora. Eu só... Ok, ok, mas não precisa me bater. Droga.
Tá bem não vou mais dizer nenhuma palavra que a senhora não goste. Mas a senhora precisa entender que a mudança química as vezes faz isso. Ta bom, eu sei que isso não é desculpa. Tudo bem, a senhora tem razão, como sempre.
Não mãe realmente não estou sendo condescendente. Não é possível agir assim com a senhora.
Ok, o tempo terminou. Me avisa quando a senhora vem? Por favor? Assim vou ver se consigo ficar melhor quando a senhora me visitar pelo menos. Sim, vou me esforçar pra fazer algo útil. Realmente. Sim eu sei se eu não levasse um vida tão inútil eu não estaria aqui.
Um beijo? Ah, sim, desculpa me esqueci que a senhora não gosta dessas frescuras.
Tchau”.
Ela fechou a porta do quarto e falou com duas jovens no corredor.
“Sim, nós ouvimos os gritos. Horrível, não? Sim, entendemos perfeitamente sua situação. Realmente deve ser aflitivo ver seu filho acabar assim. Naturalmente que a culpa não é da senhora. Ah! A senhora sempre soube que não? Que bom que a senhora não sente culpa”. Uma delas finalizou olhando de esguelha para a colega e contendo um pequeno sorriso, seja de ironia seja de assentimento.
Depois disso ela saiu em direção a porta e ao sol. Cruzou o portão e parou um instante olhando para os dois lados para decidir por onde iria voltar para sua casa no centro de Rio Grande.
“Não é fácil ter um filho assim. Eu não fiz nada pra receber esse castigo”, pensou enquanto começava o trajeto em seu passo de atleta.
Ao fundo se via a frente do prédio onde seu filho, Carlos, vivia a maior parte da sua vida, entre uma dose e outra de químicos.
O letreiro dizia:
Hospital Psiquiátrico
A. C. Santa Casa de Misericórdia
Do Rio Grande

terça-feira, 19 de março de 2013

sábado, 16 de março de 2013

DESAPRUMADA


A melancolia da cidade me seduz
com seus pingos de chuva gris

Os passantes sem rumo parecem
que desejam o sol mas querem mesmo 
é apenas prosseguir
Os novos prédios da velha cidade 
os desconforta.

Sigo pela rua esburacada 
desejando um travesseiro
para descansar minha cabeça enferma de barulho
mas cheia de sensações de réguas aprumadas.

A laguna desaprumou suas margens
e carregou com sua maré as velhas histórias
trazendo em ônibus modernos novos conceitos

Eu sigo pela rua pensando que sou feliz.
A cidade morre enquanto a vida sufoca 
no chafariz da Praça Xavier.