sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CANIBAIS


Moscas
Mosquitos
Baratas
Ratos
Cupins
Traças e percevejos
Saiam dos seus berços.

Não essa não é aquela música dos Titãs
É apenas um chavão, um clamor
para que os insetos
venham comer esse mundo cão
Clichê que eu não sei porque foi criado
pois o cachorro não tem culpa 
deste universo desengonçado.

Me desculpem a redundância
mas o bicho na realidade é o que se diz humano
que rosna, morde, aniquila
depois lambe as próprias feridas 
sem aceitar responsabilidade
sem respeitar liberdades, 
cuspindo no prato que comeu
mesmo com a boca lambuzada da gordura
de todos aqueles outros que canibalizou.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O CÃO

Todas as estradas acabam se comunicando umas com as outras, conduzindo a constatação de que as variáveis são múltiplas, mas as respostas sempre levam a uma mesma conclusão: todas as rotas se encontram, seja no extremo sul do estado, seja na capital.

E foi numa dessas rotas, antes desconhecida para si, que ela se defrontou com algo singular: um cão. Um simples cachorro que apareceu repentinamente na estrada. 

O bicho era esbelto, com um corpo elástico que somente os animais do campo, ou selvagens, possuem. Ele era uma mistura de vira-lata e galgo, o que fazia com que o cachorro parecesse bem simpático.

Seu pelo era cor de caramelo, com uma grande mancha branca que descia do pescoço em direção a sua barriga. Tinha olhos castanhos. Esboçava uma espécie de sorriso na boca, como se fosse um adolescente que gostasse de fazer bagunça em meio ao verde da mata que existia na localidade em que ele habitava,não por vontade própria,mas porque alguém,seu dono, o levara para lá. Estava com o pelo levemente molhado, como se tivesse nadado em algum riacho oculto pela vegetação. 

Todas essas pequenas e, talvez acertadas conclusões, ela tirara no breve instante em que o vira quando ele apareceu na BR 116, nas proximidades do cidade de Morro Reuter. 

Simplesmente o cão desceu um alto barranco, surgiu no micro-acostamento da estrada e ali ficou, olhando para o meio do matagal, com um ar meio de deboche, meio de expectativa, como se estivesse esperando quem ele deixara para trás. 

Ele pouco se importou com o trânsito um tanto intenso naquele final de tarde de domingo; estava mais preocupado em vigiar a trilha pela qual saíra do meio daquela vegetação exuberante para ver se quem o acompanhava chegaria em breve ou se, mais uma vez, ele tinha sido mais ágil e esperto e despistara seu amigo ou amiga.

Ao observar aquela cena, que transcorreu em frações de segundos, ela a achou tão bela, tão encantadoramente bucólica,o que lhe remetia a sua infância,que lastimou não ter tirado uma fotografia da expressão daquele belo cão esperando pelo seu companheiro de aventuras, fosse ele humano ou um outro cachorro "de mato" feliz com a liberdade que podiam usufruir naquele pacato recanto do mundo.

Mas não foi possível parar o veículo em que viajava naquele lugar. Além disso, certamente, o cão fugiria ao ver sua aproximação. Assim ela se conformou em guardar aquela imagem em sua memória,na gaveta das cenas que lhe evocavam emoções profundas. 

E a viagem prosseguiu, com ela sentada no banco do carona, o que lhe possibilitava ver todos esses pequenos e grandes detalhes da paisagem que ia ficando para trás,a medida que a viagem prosseguia. 

Cerca de um quilômetro adiante do ponto onde encontrara o cachorro, que tanto lhe despertara curiosidade e uma bela fotografia mental, ela reparou em uma pequena muda de roupa cor de rosa pendurada em um arbusto a beira da estrada. 

"Parece ser de criança",pensou. "Porque, com tanta gente precisando, as pessoas desperdiçam o que têm?" questionou-se, sabendo que não teria uma resposta satisfatória para a própria pergunta. 

Ao mesmo tempo que se perguntava sobre o desperdício percebeu um sutil rastro no lado contrário da pista e um ponto da vegetação levemente machucado, pisoteado, como se algo tivesse sido arrastado por ali a força. Mas foi algo tão rápido que,a princípio,não lhe causou maiores impressões e ela logo esqueceu a roupa cor de rosa e a trilha recém aberta na mata.

Por fim, conseguiu chegar a Porto Alegre e ao hotel em que ficaria hospedada naquela noite até que pudesse retomar,no dia seguinte,a viagem até sua terra natal,e na qual chegaria através da Br 392. Foi encaminhada para o seu quarto, tomou um banho para que a poeira que se grudara em seu corpo escorresse pelo ralo.Deitou-se e dormiu como uma pedra até as 8h da manhã.

Acordou com a imagem daquele cachorro na mente e sorriu. Cenas bucólicas sempre lhe causavam vívidas impressões. Pensou até em escrever algo sobre o que tinha visto. Já tinha até um possível início para a história.

Depois de se vestir, desceu para tomar o café e dar uma olhada nos jornais, antes de prosseguir a viagem. Quando se sentou viu a primeira página do jornal mais prestigiado do seu estado e,para sua surpresa, lá estava ele, o cão,com seu belo corpo, sua pelagem bonita e seu sorriso maroto.Ela sorriu brevemente e pensou: "Que coincidência!"

Foi nesse instante que ela percebeu o restante da cena que fazia parte da foto: em uma mesa, exposta com certo mal gosto e grande crueza,uma enxovalhada e pequena peça de roupa cor de rosa; ao lado desta, uma faca de caça e uma camisa sujas de sangue,bem como uma corda enrodilhada, como uma serpente prestes a dar o bote.

Ao lado do cão estava postado,em pé, com as mãos para trás, possivelmente algemadas, um jovem de cerca de vinte e poucos anos, branco, loiro, de olhos claros, com um rosto angelical de tão belo. Estranhamente, ele aparentava esboçar o mesmo tipo de sorriso de seu amigo de quatro patas.

Ela lembrou do rastro sutil que havia visto na estrada.Sentiu um calafrio subir por suas pernas e chegar a sua nuca, arrepiando os pelos dos braço e o cabelo de seu couro cabeludo quando observou os olhos do rapaz que fazia par com seu cão sorridente.

A manchete dizia: "Polícia Civil e Militar prendem jovem que vinha aterrorizando o interior, por sequestrar, violentar e matar cruelmente meninas com roupas cor de rosa. Ele usava seu cão para atrair as vítimas".

Ela preferiu não ler a notícia na íntegra,mas ouviu dizer que o criminoso alimentava o animal com pedaços de suas vítimas.

Ela sentiu uma bola subir até sua garganta. Agora aquela imagem linda estaria maculada em sua mente até o fim de seus dias. No fim, aquele cão não era tão inocente quanto ela acreditara.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

CALÇANDO PÉS


Dorme criancinha
Enquanto pingos de sangue
Caem do céu e lavam os homens
Sem excomungar seus pecados

Os pobres ainda calçam seus pés
Os ricos deslizam em algodão doce
Os remediados observam patéticos

Dorme criancinha
Enquanto rios viram piscinas
O mar já não é
O verde escorreu no papel
E todos
Todos
Todos são o que não se é

Dorme criancinha
Que eu sonharei que ainda serás feliz
Quando nunca foste nem serás
Porque o caos jaz a teus pés.

domingo, 23 de dezembro de 2012

FILHA DE SAM


“Afirmo: com certeza, autotortura não faz nada bem, mesmo a psicológica. Ah! Como doí essa coisa que bate dentro do peito. Uma filha de Sam não deveria sentir, mas...”

Mesmo diante desta simples conclusão e sendo tida como nervosinha preferiu optar por uma profissão, um estilo de vida e uma forma de diversão que prejudicava ainda mais a análise de sua personalidade. Em função disso, não era apenas impaciente. Passou a ser intransigente, opiniática, cheia de manias com as quais outros não podiam conviver.

Sua formação ocorreu naquela década passada ao largo e que agora querem recuperar: a de 80, a mais pop e a mais absolutista que poderia ter existido, seja neste país, seja em qualquer outro. Tornou-se letrada, aparentemente inteligente, envolvida em várias vicissitudes da vida moderna, sem se envolver realmente com nada.

Aparentava sentir, mas será? Sempre se percebera como a mais evidente filha de Sam, muito embora os outros não notassem. Havia um quê de psicótico em suas ações e reações, ela sabia. E se questionava como ninguém notava.

Sofrera ‘bullyng’, o que na sua época já existia em sua cidade, escola e até mesmo entre familiares, assim como no resto do mundo, embora as pessoas não dessem esse nome estrambólico ás perseguições que ocorriam nas instituições mencionadas. Além disso, dentro do colégio ninguém se importava com o que os estudantes faziam uns com ou outros.

Então, tudo era entendido como um fato comum entre aqueles das mesmas faixas etárias. “Brigas de crianças”; “birra apenas”; “criancices”; apesar das injustiças que ocorriam, dos maus tratos, dos sentimentos feridos e das escoriações que apareciam.

“Não foi nada, mãe. Caí no pátio durante o recreio”.

“Esbarrei num colega na educação física”.

“Bati a cara na cercada horta quando estava de correria”.

“Vê se toma cuidado, guria. Sempre desajeitada”, repreendia a mãe.

“Tu mais parece um guri que uma menina”, dizia o pai, meio grogue.

E mesmo com a vontade de baixar o sarrafo em todo o mundo, nada fazia. Remoía sozinhas as escoriações e sentimentos feridos. Nunca havia explodido uma bomba na escola, nunca metralhara nenhum colega, nunca socara a cara de ninguém menor do que ela. Mas sabia que, por dentro, num lugar que ninguém vê nem sente, a semente se contraía. Só não entendia porque esta não vingava.

É bem verdade que escrevera um diário codificado, com alguns desenhos um tanto estranhos, mas quando as ruminações chegaram naquele quarto escuro resolveu que aquilo não adiantaria nada. Aliás, era até perigoso. Então, deixou de escrever e começou a viver de sonhos e pesadelos.

O diário foi escondido por dois anos, o que poderia ter algum significado esquisito para ela. Ou não.

Quando o leu pela segunda vez percebeu que tudo ali era muito suspeito e destruiu o caderno, sentindo um prazer meio mórbido em ver as chamas devorando as palavras uma a uma, como um canibal degustaria suas vítimas, enquanto seus olhos traduziam inversamente os códigos, que, mesmo assim, acabavam dizendo a mesma coisa e nada.

“Uma filha de Sam deveria ser mais ativa”, pensou nessa ocasião solene. Entretanto, nunca ultrapassou o limite da divagação. Continuava a olhar furtivamente ao redor, planejando de forma incansável a vingança, sem nunca pô-la em prática. E seus colegas se iam rindo por terem acabado com seu corpo e mente. Mas quando se voltavam ela estava olhando e, sem saberem o porquê, acabavam acelerando o passo. Aqueles olhos infinitamente mansos arrepiavam suas nucas.

Até que ela descobriu um membro muito pequeno, mas eficaz. Ah! Se tivesse percebido antes tudo teria sido diferente, talvez menos duro, embora intragável. Sua língua passou a ser o detonador de muito desconforto para aqueles que a incomodavam. E por isso passou a vagar pela escola sozinha, a viver na biblioteca, a falar com professores sem ter que se preocupar com as represálias e apelidos de puxa saco.

E assim ela foi vivendo a década da desgraça juvenil, que trouxe outra onde a cultura se esvaiu pelo ralo, até chegar a que corre hoje, em que muitos alegam que se está vivendo uma grave crise social e se reconheceu a ‘existência’ do tal ‘bullyng’.

Parece que somente quando algo chama atenção ou é nomificado em outro país é que se começa a ver que o problema também ocorre aqui ou acolá. É como moda ‘retrô’: vai e volta e as pessoas sempre dizem que estão criando ou descobrindo algo novo, sem, contudo, realmente estarem fazendo isso.

A década de 80 se resume a este ‘x’. E a atual só aprendeu a copiar aquela, com grande prejuízo para a arte de se saber o que deve ser feito.

Assim, o terrorismo emocional e escolar virou rotina. A moda agora é homem chamar mulher de cachorra, mulher aceitar e pedir para ser tratada como cachorra, o que, no final não se sabe o que significa, porque as cadelas até são bem tratadas pelos seus companheiros, e deificar pessoas que matam tudo em busca de dinheiro, prazer, adrenalina, mais prazer, mais adrenalina, mais dinheiro, até tudo virar rotina e ninguém sentir mais nada.

Ela meditava nessas circunvoluções algumas vezes. Mas ela era uma filha de Sam e sabia que isto ocorreria com pelo menos vinte anos de antecedência e não se preocupava muito com o resultado. Os decadentes assintomáticos sempre preveem a decadência antes mesmo de ser prenunciada.

Assim, seu pai morreu miseravelmente, mas seu legado virou a melhor herança que ele poderia deixar. Nem ele percebeu isso antes de sua fatídica e esperada morte.

Contudo, a psicose de sua filha continuaria parcamente dominada. Ela era de uma espécie diferente de filha de Sam, uma espécie transitória, que na ocasião que surgiu não sabia bem o que queria, desejava ser ou fazer. A influência paterna foi forte, mas, como pode ocorrer na primeira geração, não a ponto de desencadear o surto fatal para si ou para outros.

Diz o determinismo, tese que ela achava uma grande bobagem, mesmo sendo uma das teorias em evolução constante, sem nunca constatar nada, e de ser amplamente divulgada pelo país de origem de seu pai, que o gene ruim, embora presente, pula uma geração, e acomete fortemente a segunda e terceira, agravando-se com o passar dos séculos ou sofrendo uma recidiva. Afinal, a doutrina do mais forte ainda servia para justificar muita mentira tosca, vendida a preço de banana, e aceita pela maior parte da população letrada ou não para desculpar suas atitudes esquizoides.

Entretanto, ela sabia que esse cientificismo todo não era verdadeiro. Sabia que, se uma semente era ruim, os brotos todos seriam contaminados.

Como ela já confirmara, o fato era que os rebentos mais antigos apenas pareciam conter mais facilmente sua malignidade. Haviam decidido, de sã consciência, deixar que seus descendentes, com a mais exaltada alegria, mostrassem perante os expectadores, mais ou menos inocentes, a pior parte. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

PARAOCULAR


Ofuscados, os olhos brilhabrilhavam tentando alcançar a compreensão daquilo que escurecia a sua frente. As dissolutas sombras branquejantes esvoaçavam, numa dança exoticomum que lhe confundia a cabeça, tanto que lhe era dificultoso discernir o que acontecia ao redor.

Escurecendo a alva parede, a 10 metros de distância, quadros empirirrealisticos deslizavam calmamente pelas ruas, buscando abrigo contra a ventachuviscania que molhasecava tudo que trafegava naquelas ruas.

Absorveu o odorrarifeito que buscava ante a incompreensão daquilo que já não mais entendia. A situação submeradjacente estava lhe conduzindo a conclusões improváveis para questionarrações que se insurgiam em sua mente ebulincandescente.

Sentiu que escorreu naquele esbranquenegrecimento e que já não era mais o enterrespiravivente que antes acreditava ser. Assim, foi vagandorrastando-se para o lugar em que podia voltar a concatenar seus pensamentais neurosentimentos e ver como solveria a crucial incerteza que surgiu em função de seus olhos esbugobscurecidos.

Chegou ao lar, sentou em sua poltrona e refletiu naquela situação esdrúxula que lhe luscafuscava os espelheolhos de sua alma, nesta hora, tão ironintristecida pelas confusas negroparições que não tinha êxito em clarixplicar.

Por fim, após minutos de profunda e catatofônica premissão de seus neuropensantes circuitos, chegou a uma baça conclusão:

- O que eu preciso é de um novo parocular de visioprecisanarração.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A ASSASSINA


Matei-te, matei-te enfim.
Esmigalhei-te contra meu peito
e teu corpo escorregou no fim.

Matei-te, matei-te,
mosca incômoda,
que estava a revoar
a minha volta,
irritando meu humor
e acossando a assassina em mim.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

PARTICIPAÇÃO NO PROJETO CLICK&TECLAS


PASSA A TELA*
Olha para o alto. Cor anil. Mistura um pouco de branco. E sente uma sensação de descanso.

Olha para o lado esquerdo, mais embaixo. Mistura a cor de areia com a cor verde. Surge um mato interessante, mas bagunçado, com garrafas pet, de vidro, latinhas de cerveja, papel, (aquilo é um preservativo?): quem sabe descaso, quem sabe esperança anda a espreita ao lado.

Olha para o chão. Pinta umas hastes de cinza madeira. Trilha no mato e na areia. Além (pode ser) surgirá uma transparência que revelará um mar: de vida ou de morte.

Caminha na passarela. Gente a frente que passa, de mãos dadas, companheiras, gente que transporta cadeiras para descansar do descanso ou da vida que tonteia.

Caminha. Caminha nessa soleira.

Neste vento de pó que aqui aumenta a solitária viagem nesta tela que passa na passarela colorida, feia ou bela, mas que ainda carrega os sonhos dos papareias.


*Esta crônica foi redigida para que eu pudesse participar, como “Escritora Convidada”, do Projeto Click&Teclas, criado por Glênio Freitas Jr.1 e Matheus Bandeira2.
O projeto partiu de uma troca de ideias entre os dois colegas acima mencionados. Glênio, fotógrafo por paixão, achou que suas fotos necessitavam de um texto para complementar as mesmas. Daí propôs a seu amigo escritor Matheus Bandeira um desafio: Glênio apresentaria algumas fotos semanalmente para o escritor e este escolheria uma e criaria um texto para ampliar a sensação que as belas fotos do amigo já capturavam. Surgiu, assim, da mistura de amizade, paixão pela fotografia e literatura um rico projeto.
Eu entrei nessa de metida. Um dia, vendo a postagem de uma das fotos e do texto que acompanhava, me apaixonei pela ideia e me ofereci para participar. Como tanto Glênio, quanto Matheus, são pessoas gentis, aceitaram meu ‘ultimato’ e me convidaram para participar do projeto como “Escritora Convidada”.
Espero que gostem do texto que escrevi para a bela foto do Glênio e desejo imensamente que os colegas e leitores de meu blog acompanhem o trabalho desses dois talentos riograndinos.

1Glênio Freitas Jr.:

2Matheus Bandeira: