segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CURTINDO O LIVRO "POETAS DE PIJAMA


CURTINDO O LIVRO
“POETAS DE PIJAMA”: BREVE COMENTÁRIO
Parte 1: Capa e Cartuns
Eu adquiri o livro tema deste post na 40ª Feira do Livro do Rio Grande/RS com grande expectativa, pois alguns trabalhos literários de alguns colegas de escrita noturna eu já conheço e aprecio, bem como desejava conhecer outros de quem ouvi falar.
Além disso, sei que na nossa terrinha tem muito talento escondido, que não é divulgado ou objeto de comentários porque aqui pouco se fala sobre os artistas da terra (com algumas exceções, claro) e um dos meus objetivos neste blog é (dentro dos limites do tempo dedicado as minhas outras atividades) tentar divulgar um pouco da cultura riograndina pelo ‘mundo’ afora.
Aqui pretendo comentar os autores com que mais me identifiquei. No entanto, já deixo registrado que todos os autores e cartunistas, e/ou desenhistas, que participaram do projeto estão de parabéns, visto que se não tivessem talento os organizadores do livro não teriam escolhido os mesmos para estarem nesta Antologia riograndina que, acredito, foi uma das mais bem sucedidas dos últimos tempos, talvez a mais, pelo fato de abraçar tantos estilos diferentes, sem permitir que alguma espécie de ‘preconceito estilístico’ interferisse nas escolhas.
Em função disso parabenizo todos os escritores e cartunistas que tiveram suas obras selecionadas, bem como o bom e exaustivo trabalho que os organizadores tiveram para por em prática um projeto tão audacioso para os padrões da terrinha.
Agora vamos ao que interessa: os comentários sobre o que vi e li.
CAPA e CARTUNS:
A Capa do livro, um dos elementos que os escritores sabem que tem que ser bem construída, seja para convidarr os leitores à leitura (isto é o que considero mais importante), seja para que o livro possa vender, está muito legal.
E quando digo legal não é para dizer que é um desenho que condiz com o tema do livro, o que é óbvio, mas porque o artista que a produziu, Wagner Passos, fez um trabalho muito bonito, com as características marcantes de suas obras, que muitas vezes já apreciei numa certa livraria da cidade.
Ele traduziu perfeitamente as noites insones dos escritores, não apenas pelos trabalhos acadêmicos, mas também pelo prazer que sentem em escrever na calada da noite, onde o barulhento silêncio convida a por no papel os sentimentos e as visões de mundo que os escritores do livro possuem.
O que gostei da capa é a pureza quase infantil, pois Wagner trabalha muito com a área de desenhos e histórias infanto-juvenis, sem, contudo, deixar de atrair jovens e adultos, pois o desenho retrata o universo dos acadêmicos em seus estudos noturnos, o que muitas vezes aconteceu comigo na minha época de faculdade. Portanto, a capa cativa de pronto e por isso merece todos os elogios possíveis.
Os Cartuns também foram muito bem escolhidos, divulgando os blogs dos artistas e mostrando um pouco deste universo que aqui na City é quase desprezado pela maior parte das pessoas ditas intelectuais e pelos leitores.
Além disso, os cartunistas, ou desenhistas (desculpem a falta de utilização do termo exato, mas é porque não sei diferenciar uma coisa da outra, mas aceito explicações dos colegas da área), produziram trabalhados que envolviam a atividade de escrever ou desenhar, casando perfeitamente com o livro.
Os trabalhos escolhidos demonstram que existem vários artistas nesta área na cidade que precisariam ser melhor divulgados.
Os cartuns ou desenhos com que mais me identifiquei foram os que seguem. As frases entre aspas são os comentários que anotei sobre o que senti ao vê-los:
Rafaela Silva – p. 20: “Muitas vezes, não só na faculdade, mas hoje em dia também, me vejo na mesma situação, observando o mundo através da janela e catando restos de palavras para escrever alguma coisa insensata”. Esse o sentimento que este cartum me despertou e escrevi no livro. Parabéns, Rafaela.
Lidiane Fonseca Dutra p. 42: “Não sei o que dizer. Tu me perturba e me fascina. Eu poderia ficar horas te olhando e mesmo assim não conseguiria te definir plenamente ou descobrir tudo o que tens ou não a dizer”. Sinto muito Lidiane, amei o desenho, mas não sei explicar o que ele me causa. Parabéns.
Diogo Soares Dornelles – p. 64: “Droga, alguém conseguiu descobrir meu esconderijo e tirou uma foto de mim, nas minhas atividades noturnas suspeitas”. Eu me vi neste desenho. Muito bom, Diogo. Parabéns.
Everton Soares Cosme – p. 74: “Retrato vivo de quem ainda gosta de um bom lápis, seja para desenhar, seja para rabiscar letras confusas”. Excelente Cartum. Parabéns, Diogo.
Rosali Alves Colares – p. 102: “Ah! Eu sempre quis a liberdade das tuas asas...”. Bonito Cartum. Parabéns, Rosali.
Esta a minha franca opinião sobre esta primeira parte do trabalho realizado para disponibilizar a Antologia “Poetas de Pijama” ao público. Na próxima parte falarei dos textos que mais me interessaram.

BOVINOS



Segunda de Carnaval. Nada que seja útil na TV. Na cidade, somente samba de boa ou má qualidade. Graças a Deus os desfiles foram transferidos pro Cassino, assim não preciso escutar os batuques desajeitados que eram tocados perto da minha casa.

Mas, mesmo assim, o povo correu pra lá. Quer participar da festa popular mais agitada do país. Povo é assim. Gosta de pão e de circo, como nos velhos tempos. Nada contra, todos têm direito de escolher o circo que preferem.

No entanto, o que fazem ‘os desolados’ que não gostam de festas populares ou delas não participam porque não querem? Ficam sem qualquer divertimento? Ficam sem ter o que fazer, embora gostem de música e diversão tanto quando ‘o povo’?

Que nada! Todo bovino tem suas características próprias, seus gostos e preferências.

Eu fico em casa, escutando minhas músicas, vendo meus filmes, lendo meus livros, sentindo finalmente um pouco da tranquilidade que surgiu em meu bairro depois que o circo alheio foi levado pra outro lugar.

Contudo, eu também sou gado. Talvez com um gosto um pouquinho mais requintado, talvez um pouquinho mais pseudo-intelectualizada. Sou de uma raça diferente de gado, mas ainda sou. E tenho o meu próprio estilo de pão e circo, e nem sempre civilizado também.

Cada bovino tem o direito de escolher como quer ser feliz, embora possa fazer uma péssima escolha.

Pena que, às vezes, alguns acreditam que tem o dever de escolher pelo gado, que supostamente não pensa, o que melhor lhe serve como pão e circo.

Por isso eu sempre concordo com Zé Ramalho, esteja ele criticando ou não:

“Eh, oh oh
Vida de Gado
Povo marcado
Eh
Povo feliz”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PROVE QUE VOCÊ NÃO É UM ROBÔ

Com certeza aquela frase em destaque na tela do PC era uma das que mais o estava angustiando atualmente quando ele precisava realizar qualquer ação no ciberespaço, onde se recreava e também exercia a maior parte das suas atividades profissionais.

A frase fonte de sua angústia, segundo sites de hospedagem de páginas e redes sociais, servia para proteger os proprietários dos sítios e blogs dos ataques de vírus virtuais que roubavam dados do PC hospedeiro, causando sérios danos ao usuário da rede. Contudo, a bem da verdade ela lhe causava mal estar, desassossego. MEDO.

No começo ele não compreendia de forma clara porque tinha essas sensações quando via aquelas palavras surgirem diante de seus olhos. Mas hoje, de alguma forma, um indício do que poderia ser havia surgido em sua mente hiperventilada e ele entendeu qual a fonte do receio.

A maldita frase levantava um questionamento e gerava uma dúvida que era exposta de forma indecente em suas letras pretas grifadas em negrito na janela aberta dos sites que ele visitava. Isso transtornava suas emoções, em geral já agitadas, porque o fazia refletir, perguntar se ele seria capaz de provar que não era o que ela infirmava ou que era o que ele acreditava ser.

"Prove que você não é um robô".

Um simples frase, absurda na maneira como era formulada e na ordem que continha. No entanto, as palavras faziam com que ele ficasse sempre alguns segundos a meditar e a dizer para si mesmo:

"Eu sei que não sou. Mas como comprimir esses botões para reproduzir o 'captcha' prova isso 'pra eles', se até robôs podem ser programados para apertarem teclas?"

Percebeu, então, que a oração que via era afirmativa, indutiva e, provavelmente, criada para fazer o leitor respondê-la mecanicamente. Entretanto, ele não era mecanicamente programado; sua mania de questionar o levava a tecer pensamentos e teorias desconcertantes que contribuíam para que ele ficasse ainda mais desconfortável com aquela situação.

Isto transformou seus dias, antes calmos e rotineiros em sua agitação convencional, numa enxurrada de dúvidas, desconfianças, calafrios e teorias conspiratórias que estavam quase afetando sua sanidade. Se é que ele possuía alguma. Chegou a um ponto em que, o simples fato de chegar perto do micro, já fazia seu estomago embrulhar. 

Não conseguia encarar aquele comando e respondê-lo sem sentir-se totalmente desprotegido, quase como se estivesse nu diante de uma platéia que o olhava e o ridicularizava por seus receios infantis.

Mas ele necessitava prosseguir. Por isso, digitava os símbolos o mais rápido possível para poder continuar com suas tarefas tentando assumir uma posição equidistante de tudo aquilo.

No entanto, e como de praxe acontece, toda ordem indutiva e toda dúvida silenciosa, quando conjugadas, acabam gerando reações inesperadas, contundentes e conflitantes entre si.

Assim, a frase simples quando lida, e que se tornou sua grande dúvida existencial, destravou algum mecanismo de defesa psíquico em seu cérebro, antes fortemente protegido, e o fez lembrar do que havia soterrado sob toneladas de escombros de sua memória.

Lembrou nuvens deslizando rapidamente pelo céu. De um dia de chuvisco cinza em Big River. De um estrondo. Da cor vermelha se esparramando no chão e de dois manequins destroçados em meio a pista de rodagem da Br 392. Recordou que não conseguia lembrar de nada, exceto que era alguém que um dia estava enfrentando a estrada molhada e, um mês depois, parecia que tinha acordado e não sabia mais nada do que tinha acontecido no intervalo de tempo entre a pista escorregadia e alguma coisa batendo.

Rememorou que alguém lhe tinha dito que ele era casado e tinha um filho, mas achava estranho chegar em casa e não encontrá-los: nem  esposa e filho, nem fotografias. E isso lhe trazia ao nariz o cheiro quase palpável de pneus queimados misturado com vômito e odor de uísque.

Depois, depois não sabia explicar direito o que vinha, a não ser um mal estar imenso e a sensação de culpa por alguma coisa que havia perdido.

Enquanto pensava nisso tudo, no micro, lá estava a horrível frase:

"Prove que você não é um robô".

"Prove que você não é um robô".

"Prove que você é um robô".

Ele chegou a conclusão de que deveria ser um, por isso não conseguia digitar a palavra chave para postar naquele blog. Sentiu sua personalidade se desfazer por completo, ouviu seu corpo ecoando estalidos, rangidos de ferro contra ferro e seu cérebro produzindo sua linguagem através de informações codificadas em bites e pixels.

Ele segurou firmemente os braços da cadeira em que estava sentado, começou a hiperventilar e suar copiosamente. Levou a mão ao peito sentindo a pulsação estranha e uma dor terrível se espalhando pelo tórax, pressentindo que ele ia explodir a qualquer segundo e mostrar seu interior repleto de fios, conexões, tubos e chips. Emitiu um grito alucinado que escapou por sua garganta e... 

E então, ele acordou assustado, levantando de supetão a cabeça pesada. O corpo empapado de suor, mas preservado, o coração batendo seu descompasso humano, uma pequena poça de baba sobre a mesa onde sua cabeça caíra naquele sono cheio de pesadelos de recordações sem sentido.

Ele se levantou, percebendo o desconforto de ter dormido naquela posição inadequada toda a noite percorrendo o seu corpo. Por isso esticou seus membros e seus músculos relaxaram um pouco. Sentia dor no cérebro bastante acentuada.

Observou que a frase ainda estava grifada na tela do PC: "Prove que você não é um robô".

Ele meditou por um segundo. Depois estendeu lentamente seu braço e desligou o computador. Pegou sua jaqueta de couro e sai para a rua. Iria caminhar e sentir o sol ou a chuva em seu corpo frágil.

Enquanto caminhava sentia o prazer de ouvir seu coração batendo naquele compasso regular, como a máquina de um relógio, sem cordas: uma batida, um fluxo de sangue, outra batida e outra corrente do líquido vermelho chegando aos vários órgãos de seu corpo. Colocou a mão sobre o peito, sorrindo aliviado. 

Foi quando ele ouviu o som quase inaudível e descobriu a verdade.





sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CANIBAIS


Moscas
Mosquitos
Baratas
Ratos
Cupins
Traças e percevejos
Saiam dos seus berços.

Não essa não é aquela música dos Titãs
É apenas um chavão, um clamor
para que os insetos
venham comer esse mundo cão
Clichê que eu não sei porque foi criado
pois o cachorro não tem culpa 
deste universo desengonçado.

Me desculpem a redundância
mas o bicho na realidade é o que se diz humano
que rosna, morde, aniquila
depois lambe as próprias feridas 
sem aceitar responsabilidade
sem respeitar liberdades, 
cuspindo no prato que comeu
mesmo com a boca lambuzada da gordura
de todos aqueles outros que canibalizou.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O CÃO

Todas as estradas acabam se comunicando umas com as outras, conduzindo a constatação de que as variáveis são múltiplas, mas as respostas sempre levam a uma mesma conclusão: todas as rotas se encontram, seja no extremo sul do estado, seja na capital.

E foi numa dessas rotas, antes desconhecida para si, que ela se defrontou com algo singular: um cão. Um simples cachorro que apareceu repentinamente na estrada. 

O bicho era esbelto, com um corpo elástico que somente os animais do campo, ou selvagens, possuem. Ele era uma mistura de vira-lata e galgo, o que fazia com que o cachorro parecesse bem simpático.

Seu pelo era cor de caramelo, com uma grande mancha branca que descia do pescoço em direção a sua barriga. Tinha olhos castanhos. Esboçava uma espécie de sorriso na boca, como se fosse um adolescente que gostasse de fazer bagunça em meio ao verde da mata que existia na localidade em que ele habitava,não por vontade própria,mas porque alguém,seu dono, o levara para lá. Estava com o pelo levemente molhado, como se tivesse nadado em algum riacho oculto pela vegetação. 

Todas essas pequenas e, talvez acertadas conclusões, ela tirara no breve instante em que o vira quando ele apareceu na BR 116, nas proximidades do cidade de Morro Reuter. 

Simplesmente o cão desceu um alto barranco, surgiu no micro-acostamento da estrada e ali ficou, olhando para o meio do matagal, com um ar meio de deboche, meio de expectativa, como se estivesse esperando quem ele deixara para trás. 

Ele pouco se importou com o trânsito um tanto intenso naquele final de tarde de domingo; estava mais preocupado em vigiar a trilha pela qual saíra do meio daquela vegetação exuberante para ver se quem o acompanhava chegaria em breve ou se, mais uma vez, ele tinha sido mais ágil e esperto e despistara seu amigo ou amiga.

Ao observar aquela cena, que transcorreu em frações de segundos, ela a achou tão bela, tão encantadoramente bucólica,o que lhe remetia a sua infância,que lastimou não ter tirado uma fotografia da expressão daquele belo cão esperando pelo seu companheiro de aventuras, fosse ele humano ou um outro cachorro "de mato" feliz com a liberdade que podiam usufruir naquele pacato recanto do mundo.

Mas não foi possível parar o veículo em que viajava naquele lugar. Além disso, certamente, o cão fugiria ao ver sua aproximação. Assim ela se conformou em guardar aquela imagem em sua memória,na gaveta das cenas que lhe evocavam emoções profundas. 

E a viagem prosseguiu, com ela sentada no banco do carona, o que lhe possibilitava ver todos esses pequenos e grandes detalhes da paisagem que ia ficando para trás,a medida que a viagem prosseguia. 

Cerca de um quilômetro adiante do ponto onde encontrara o cachorro, que tanto lhe despertara curiosidade e uma bela fotografia mental, ela reparou em uma pequena muda de roupa cor de rosa pendurada em um arbusto a beira da estrada. 

"Parece ser de criança",pensou. "Porque, com tanta gente precisando, as pessoas desperdiçam o que têm?" questionou-se, sabendo que não teria uma resposta satisfatória para a própria pergunta. 

Ao mesmo tempo que se perguntava sobre o desperdício percebeu um sutil rastro no lado contrário da pista e um ponto da vegetação levemente machucado, pisoteado, como se algo tivesse sido arrastado por ali a força. Mas foi algo tão rápido que,a princípio,não lhe causou maiores impressões e ela logo esqueceu a roupa cor de rosa e a trilha recém aberta na mata.

Por fim, conseguiu chegar a Porto Alegre e ao hotel em que ficaria hospedada naquela noite até que pudesse retomar,no dia seguinte,a viagem até sua terra natal,e na qual chegaria através da Br 392. Foi encaminhada para o seu quarto, tomou um banho para que a poeira que se grudara em seu corpo escorresse pelo ralo.Deitou-se e dormiu como uma pedra até as 8h da manhã.

Acordou com a imagem daquele cachorro na mente e sorriu. Cenas bucólicas sempre lhe causavam vívidas impressões. Pensou até em escrever algo sobre o que tinha visto. Já tinha até um possível início para a história.

Depois de se vestir, desceu para tomar o café e dar uma olhada nos jornais, antes de prosseguir a viagem. Quando se sentou viu a primeira página do jornal mais prestigiado do seu estado e,para sua surpresa, lá estava ele, o cão,com seu belo corpo, sua pelagem bonita e seu sorriso maroto.Ela sorriu brevemente e pensou: "Que coincidência!"

Foi nesse instante que ela percebeu o restante da cena que fazia parte da foto: em uma mesa, exposta com certo mal gosto e grande crueza,uma enxovalhada e pequena peça de roupa cor de rosa; ao lado desta, uma faca de caça e uma camisa sujas de sangue,bem como uma corda enrodilhada, como uma serpente prestes a dar o bote.

Ao lado do cão estava postado,em pé, com as mãos para trás, possivelmente algemadas, um jovem de cerca de vinte e poucos anos, branco, loiro, de olhos claros, com um rosto angelical de tão belo. Estranhamente, ele aparentava esboçar o mesmo tipo de sorriso de seu amigo de quatro patas.

Ela lembrou do rastro sutil que havia visto na estrada.Sentiu um calafrio subir por suas pernas e chegar a sua nuca, arrepiando os pelos dos braço e o cabelo de seu couro cabeludo quando observou os olhos do rapaz que fazia par com seu cão sorridente.

A manchete dizia: "Polícia Civil e Militar prendem jovem que vinha aterrorizando o interior, por sequestrar, violentar e matar cruelmente meninas com roupas cor de rosa. Ele usava seu cão para atrair as vítimas".

Ela preferiu não ler a notícia na íntegra,mas ouviu dizer que o criminoso alimentava o animal com pedaços de suas vítimas.

Ela sentiu uma bola subir até sua garganta. Agora aquela imagem linda estaria maculada em sua mente até o fim de seus dias. No fim, aquele cão não era tão inocente quanto ela acreditara.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

CALÇANDO PÉS


Dorme criancinha
Enquanto pingos de sangue
Caem do céu e lavam os homens
Sem excomungar seus pecados

Os pobres ainda calçam seus pés
Os ricos deslizam em algodão doce
Os remediados observam patéticos

Dorme criancinha
Enquanto rios viram piscinas
O mar já não é
O verde escorreu no papel
E todos
Todos
Todos são o que não se é

Dorme criancinha
Que eu sonharei que ainda serás feliz
Quando nunca foste nem serás
Porque o caos jaz a teus pés.

domingo, 23 de dezembro de 2012

FILHA DE SAM


“Afirmo: com certeza, autotortura não faz nada bem, mesmo a psicológica. Ah! Como doí essa coisa que bate dentro do peito. Uma filha de Sam não deveria sentir, mas...”

Mesmo diante desta simples conclusão e sendo tida como nervosinha preferiu optar por uma profissão, um estilo de vida e uma forma de diversão que prejudicava ainda mais a análise de sua personalidade. Em função disso, não era apenas impaciente. Passou a ser intransigente, opiniática, cheia de manias com as quais outros não podiam conviver.

Sua formação ocorreu naquela década passada ao largo e que agora querem recuperar: a de 80, a mais pop e a mais absolutista que poderia ter existido, seja neste país, seja em qualquer outro. Tornou-se letrada, aparentemente inteligente, envolvida em várias vicissitudes da vida moderna, sem se envolver realmente com nada.

Aparentava sentir, mas será? Sempre se percebera como a mais evidente filha de Sam, muito embora os outros não notassem. Havia um quê de psicótico em suas ações e reações, ela sabia. E se questionava como ninguém notava.

Sofrera ‘bullyng’, o que na sua época já existia em sua cidade, escola e até mesmo entre familiares, assim como no resto do mundo, embora as pessoas não dessem esse nome estrambólico ás perseguições que ocorriam nas instituições mencionadas. Além disso, dentro do colégio ninguém se importava com o que os estudantes faziam uns com ou outros.

Então, tudo era entendido como um fato comum entre aqueles das mesmas faixas etárias. “Brigas de crianças”; “birra apenas”; “criancices”; apesar das injustiças que ocorriam, dos maus tratos, dos sentimentos feridos e das escoriações que apareciam.

“Não foi nada, mãe. Caí no pátio durante o recreio”.

“Esbarrei num colega na educação física”.

“Bati a cara na cercada horta quando estava de correria”.

“Vê se toma cuidado, guria. Sempre desajeitada”, repreendia a mãe.

“Tu mais parece um guri que uma menina”, dizia o pai, meio grogue.

E mesmo com a vontade de baixar o sarrafo em todo o mundo, nada fazia. Remoía sozinhas as escoriações e sentimentos feridos. Nunca havia explodido uma bomba na escola, nunca metralhara nenhum colega, nunca socara a cara de ninguém menor do que ela. Mas sabia que, por dentro, num lugar que ninguém vê nem sente, a semente se contraía. Só não entendia porque esta não vingava.

É bem verdade que escrevera um diário codificado, com alguns desenhos um tanto estranhos, mas quando as ruminações chegaram naquele quarto escuro resolveu que aquilo não adiantaria nada. Aliás, era até perigoso. Então, deixou de escrever e começou a viver de sonhos e pesadelos.

O diário foi escondido por dois anos, o que poderia ter algum significado esquisito para ela. Ou não.

Quando o leu pela segunda vez percebeu que tudo ali era muito suspeito e destruiu o caderno, sentindo um prazer meio mórbido em ver as chamas devorando as palavras uma a uma, como um canibal degustaria suas vítimas, enquanto seus olhos traduziam inversamente os códigos, que, mesmo assim, acabavam dizendo a mesma coisa e nada.

“Uma filha de Sam deveria ser mais ativa”, pensou nessa ocasião solene. Entretanto, nunca ultrapassou o limite da divagação. Continuava a olhar furtivamente ao redor, planejando de forma incansável a vingança, sem nunca pô-la em prática. E seus colegas se iam rindo por terem acabado com seu corpo e mente. Mas quando se voltavam ela estava olhando e, sem saberem o porquê, acabavam acelerando o passo. Aqueles olhos infinitamente mansos arrepiavam suas nucas.

Até que ela descobriu um membro muito pequeno, mas eficaz. Ah! Se tivesse percebido antes tudo teria sido diferente, talvez menos duro, embora intragável. Sua língua passou a ser o detonador de muito desconforto para aqueles que a incomodavam. E por isso passou a vagar pela escola sozinha, a viver na biblioteca, a falar com professores sem ter que se preocupar com as represálias e apelidos de puxa saco.

E assim ela foi vivendo a década da desgraça juvenil, que trouxe outra onde a cultura se esvaiu pelo ralo, até chegar a que corre hoje, em que muitos alegam que se está vivendo uma grave crise social e se reconheceu a ‘existência’ do tal ‘bullyng’.

Parece que somente quando algo chama atenção ou é nomificado em outro país é que se começa a ver que o problema também ocorre aqui ou acolá. É como moda ‘retrô’: vai e volta e as pessoas sempre dizem que estão criando ou descobrindo algo novo, sem, contudo, realmente estarem fazendo isso.

A década de 80 se resume a este ‘x’. E a atual só aprendeu a copiar aquela, com grande prejuízo para a arte de se saber o que deve ser feito.

Assim, o terrorismo emocional e escolar virou rotina. A moda agora é homem chamar mulher de cachorra, mulher aceitar e pedir para ser tratada como cachorra, o que, no final não se sabe o que significa, porque as cadelas até são bem tratadas pelos seus companheiros, e deificar pessoas que matam tudo em busca de dinheiro, prazer, adrenalina, mais prazer, mais adrenalina, mais dinheiro, até tudo virar rotina e ninguém sentir mais nada.

Ela meditava nessas circunvoluções algumas vezes. Mas ela era uma filha de Sam e sabia que isto ocorreria com pelo menos vinte anos de antecedência e não se preocupava muito com o resultado. Os decadentes assintomáticos sempre preveem a decadência antes mesmo de ser prenunciada.

Assim, seu pai morreu miseravelmente, mas seu legado virou a melhor herança que ele poderia deixar. Nem ele percebeu isso antes de sua fatídica e esperada morte.

Contudo, a psicose de sua filha continuaria parcamente dominada. Ela era de uma espécie diferente de filha de Sam, uma espécie transitória, que na ocasião que surgiu não sabia bem o que queria, desejava ser ou fazer. A influência paterna foi forte, mas, como pode ocorrer na primeira geração, não a ponto de desencadear o surto fatal para si ou para outros.

Diz o determinismo, tese que ela achava uma grande bobagem, mesmo sendo uma das teorias em evolução constante, sem nunca constatar nada, e de ser amplamente divulgada pelo país de origem de seu pai, que o gene ruim, embora presente, pula uma geração, e acomete fortemente a segunda e terceira, agravando-se com o passar dos séculos ou sofrendo uma recidiva. Afinal, a doutrina do mais forte ainda servia para justificar muita mentira tosca, vendida a preço de banana, e aceita pela maior parte da população letrada ou não para desculpar suas atitudes esquizoides.

Entretanto, ela sabia que esse cientificismo todo não era verdadeiro. Sabia que, se uma semente era ruim, os brotos todos seriam contaminados.

Como ela já confirmara, o fato era que os rebentos mais antigos apenas pareciam conter mais facilmente sua malignidade. Haviam decidido, de sã consciência, deixar que seus descendentes, com a mais exaltada alegria, mostrassem perante os expectadores, mais ou menos inocentes, a pior parte.