quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

P.S.: SEM PALAVRAS

Hoje minha mente amanheceu vazia. Sem sons, sem imagens, sem lembranças. Foi até emocionante escutar o silêncio que retinia na minha cabeça, porque, sabe, ela nunca está quieta. Está sempre retumbando algum argumento, criando alguma trama ou, então, refletindo sobre conhecimentos quase completamente inúteis.

Mas a alegria, de ver minha cabeça assim quieta, durou poucos minutos, porque me dei conta de que no meio deste silêncio abençoado, surgia um ponto de interrogação que eu não podia responder e, por isto, se tornava bastante inconveniente.

Como o cérebro estava vazio eu perdi a identidade. Eu não encontrei as minhas memórias, os acontecimentos da minha vida, todas aquelas coisas que me tornavam 'eu'. Simplesmente assim: eu não lembrava quem eram meus pais; quando eu tinha nascido; onde havia crescido; se tinha casado ou não; se tinha filhos; se tinha estudado; se trabalhava e onde. 

Esse fato se tornou um tanto preocupante, porque eu não sabia exatamente onde estava e para onde deveria voltar; se é que eu tinha um lugar para voltar.

Aí me sentei aqui no canteiro desta praça para tentar encontrar uma solução, mesmo que temporária, para a situação em que me metera, embora eu nem me recordasse como tinha parado nesse lugar. 

Felizmente, eu nunca fui uma pessoa de me enervar com facilidade. Mesmo diante de alguma situação arriscada, eu conseguia ficar em paz. Por isso que pareço estar apenas desfrutando da sombra das árvores.

Quer dizer, eu sinto que era ou sou assim, porque, sabe, deves estar pensando como sei que sou assim ou assado se eu perdi todas as memórias passadas e recentes. Mas é porque tenho essa sensação, de que falei, que consigo controlar os nervos, mesmo quando a ratoeira já estalou no meu pescoço. 

Então, como dizia, eu me sentei aqui e fiquei buscando algo que pudesse me dar uma direção ou uma indicação de quem eu era, ou sou, para poder retornar para não sei onde. Afinal eu não podia ser assim, feito uma página em branco num caderno que foi pouco usado pelo aluno. Deviam estar preocupados comigo. 

Se é que eu tinha alguém que se preocupasse comigo.

No meio deste estado de concentração absoluta em buscar informações numa mente que nenhum sinal de senso de pertencimento, ou de identificação, apresentava, observei as roupas que eu estava usando. São estas mesmas que uso agora: calça, camisa e sapatos brancos. Quer dizer, deviam ter sido, porque agora estão muito enxovalhados.

Será que passei muito tempo nas ruas? Apanhei muita chuva? Há quanto tempo não tomo banho? Perguntas sem respostas, naturalmente, porque não lembro ou não quero lembrar. 

Aliás, sabes se estou cheirando mal? Ah! Não queres te aproximar muito, porque não me conheces, deves ter desconfiança de alguém que anda assim, desmemoriado, pelas ruas, com roupa branca suja. 

“Deve até cheirar mal”, este, com certeza, é teu pensamento diante da minha pergunta. 

Sim, devo ter um cheiro ruim porque as roupas dizem que perambulo por aí a mais tempo do que penso, neste estado bom e mal de não ter memórias, de não ter ninguém ou nada com que me preocupar. 

Portanto, não te pedirei o favor de novo, descansa. Creio, também, que não te falarei destes meus desencontros, pois percebo que já me olhas de forma estranha, como se quisesses me afastar de ti, ou, ao menos fingir que não me vês. 

Mas e agora, o que é isso? O que te acontece? Agora queres me segurar! Estás prendendo meu corpo com garras de aço, apertando minhas margens. E me cheiras até! E o que é isto na tua mão? Uma arma? 

Não, não faz isso, por favor, não. Isso dói, isso dói muitooo. Por favor!

......

Sentada num banco na praça, a moça observava a cena a suaa frente curtindo uma mistura de curiosidade, espanto e certa melancolia. 

A princípio, a criatura enxovalhada pela chuva e pelos dias em que ficou exposta as intempéries desfrutava uma paz quase beatífica. Seus cabelos compridos estavam emaranhados pela sujeira. Suas roupas nada mais eram que uma calça velha e ensebada, marrom, e um par de chinelos de dedo gasto pelas andanças nas vias públicas.

Seu rosto, transfigurado por uma barba mal aparada de um lado, era tão sujo quanto o resto do corpo. E mesmo um tanto distante, ela podia perceber que os olhos escuros eram um misto ondulante de loucura e sanidade, não sabia dizer se pelas dores que sofreu ou pelo uso de alguma droga lícita ou não.

Às vezes dormitava esta criatura, as vezes levantava, dava uns passinhos em alguma direção, mas acabava voltando para o lugar que hoje escolheu para ficar: um dos canteiros da Praça Tamandaré, debaixo das árvores, porque o sol tinha caído sobre Rio Grande e consumia pedras, casas, insetos e pessoas, num fogaréu invisível.

Mas algo quebrou esse estado de semi-atividade daquele ser que ela já tinha percebido que perambulava pelas ruas da cidade há mais de dois anos. 

Ele se levantou e se dirigiu a uma das lixeiras existentes na praça e que, muitas vezes, os passantes não usavam para depositar os dejetos que produziam displicentemente. A criatura remexeu ali, circulando o círculo para lixo, como se precisasse ver de todos os ângulos para descobrir o que queria.

“Deve estar procurando comida”, pensou a observadora impassível. “Acho que eu vou...” 

Não completou o pensamento, porque quando ia levantar, aquilo que deveria ser um homem parou repentinamente de rodear a cesta. Aproximou a cabeça da boca de lixo, olhou bem olhado, depois enfiou o braço lá dentro, remexendo o conteúdo, puxando rapidamente algo para fora. 

Era um caderno, aparentemente. Meio enxovalhado, mas a moça percebeu, enquanto o tal vagabundo virava algumas folhas, que o mesmo estava praticamente vazio. O sujismundo pegou o caderno, enfiou debaixo do braço, fedorento com certeza, e voltou calmamente para seu lugar.

Jogou o achado em cima do pano decrépito que usava como cama. E se recostou numa árvore ao lado dele. Volta e meia olhava desconfiado para o caderno. Às vezes parecia murmurar alguma coisa. No mais das vezes só olhava fixamente para ele.

Até que num ato de violência sem sentido catou o caderno do chão. Sentando-se, o apertou com força contra suas pernas raquíticas, com uma cara meio angustiada, meio raivosa, até que abriu o mesmo pela metade e sacou de um bolso qualquer da calça um objeto. 

Era uma caneta esferográfica. Parecia ser algo que a besta humana carregava com cuidado, apesar de não zelar por mais nada em si mesmo ou ao seu redor. 

Empunhou a caneta como se fosse a espada com a qual lutaria a última batalha de uma vida inteira de guerras entremeadas de períodos de uma paz inexistente. Fulminou o papel com mãos trêmulas e murmurando palavras que, certamente, eram ininteligíveis. Vez ou outra levantava a cabeça com os olhos fechados, ou apenas passava a mão que segurava aquela faca neles, como se tentasse resgatar alguma coisa há muito perdida. 

Por fim, pingando suor sobre as páginas violentadas, parou de ferir o papel. Olhou para ele com cara séria. Depois relaxou. Levantou-se, olhou uma última vez o caderno e o jogou, bem como a caneta, para longe de si. Recolheu suas coisas e rumou em direção contrária a que tinha lançado o caderno. Saiu do local vagarosamente para recomeçar suas perambulações.

A moça não resistiu. Levantou-se e discretamente caminhou até o local onde o calhamaço de papel havia ido pousar. Abaixou-se e recolheu o que restou do caderno de páginas enxovalhadas e embrutecidas pelo tempo e pelo homem.

Tinha sido violentado, com certeza, pela mão dura daquela criatura estranha. A folha estava meio lacerada e parecia pingar gotas de sangue azul, que escorriam das letras mal desenhadas que o bruto havia tentado apor no papel.

Diziam:

Fui?

Sou?

Serei?

Sou...

despalavreado...

A moça engoliu em seco. Olhou para o caminho que aquele que havia se tornado invisível tomou. E o viu, dando seus passos perdidos rua a fora. Volta e meia ele parava e dançava uma musiquinha imaginária. 

E quando dançava levantava os braços, como a pedir palmas pelo show.

Agora ele parecia finalmente libertado.

domingo, 18 de janeiro de 2015

ENQUETE

Então, os contos a serem escolhidos são os que seguem:

FIM DO MUNDO


Ouviu o barulho da porta estourando.

Agora, talvez, tivesse chegado a sua hora. 

Abriu os olhos vagarosamente.

Estava sentado no chão por causa da fraqueza, suas costas contra uma parede sólida de mais de 30cm de espessura, com uma blindagem no meio. Sua visão abarcou um canto meio iluminado da sala. 

Havia dois corpos ali, uma mulher e uma jovem, ambos sentindo já os efeitos do calor intenso daquele ambiente lacrado. O cheiro era forte, mas chegava as suas narinas bastante enfraquecido, pois estava perdendo as forças rapidamente.

Quem eram? O que elas estavam fazendo ali? Como vieram parar na sua casa? Só sabia que elas haviam morrido de fome há três dias.

Fechou os olhos e adormeceu brevemente.

Abriu os olhos assustado. 

Percebeu que se encontrava de cócoras num canto da sala. Ao seu lado menos de meia garrafa de água, nada para comer. Os estoques haviam acabado 48 horas atrás, quando elas morreram. Mas não foi sua culpa, havia tentado fazê-las comer o pouco que ainda tinha, mas não quiseram, estavam apavoradas e ele não entendia porque, afinal estava fazendo tudo para mantê-las seguras.

Mas sua mulher sempre fora teimosa, rancorosa. Quando ele foi procurá-la para explicar o que estava acontecendo, ela não acreditou. Teve que arrastar a mulher a força, junto com a filha deles, de 15 anos, para sua casa onde tudo estava preparado para a situação que estava ocorrendo.

A secura na sua garganta doía, o seu estômago roncava, mas agora não tinha mais vontade de comer. Elas tinham deixado de existir e tudo o que tinha feito até ali acabou perdendo o sentido. Sua existência deixou de ter uma razão. 
A intensidade da perda era tão grande que preferiu fechar os olhos, talvez tudo fosse um sonho, ou se não fosse, ainda tinha uma pequena possibilidade de que elas estivessem respirando, com dificuldades, mas ainda vivas.

Contudo, não podia sair de onde estava para verificar, muito menos tinha forças para isso, porque, em seu coração sabia a resposta: elas haviam morrido. 

Tudo era irremediável. Manteve os olhos fechados até que a escuridão ao redor adormeceu sua consciência temporariamente. Pelo menos, nesse estado, não sentia dor nem vergonha.

Repentinamente uma claridade que estava perdendo, pouco a pouco, o brilho, incomodou seus olhos. Colocou a mão sobre estes e os abriu devagar, até se acostumar com essa luz que, embora fraca, lhe provocava náuseas.
Estava em pé perto de uma parede, com algo nas mãos. 

Viu duas pessoas num canto, encolhidas. Era uma mulher e uma adolescente. Não entendeu. O que elas estavam fazendo ali? Sua esposa e sua filha. Elas nunca voltariam a sua casa espontaneamente.

Mas não. Agora lembrava, não eram elas. Sua mulher e sua filha haviam morrido há cerca de dez anos. Não sabia quem eram as duas pessoas que estavam ali.


Só sabia que elas haviam morrido de fome há cerca de 24 horas.
[continua?]

DIAS VERMELHOS

A atmosfera mormacenta do outono expele um ar inqualificável sobre a cidade do Rio Grande. O que se sente não é um odor totalmente bom ou ruim, mas certamente é desconfortável. Os moradores da cidade gris sabem que o ar aqui é diferente: carrega algo que fica a espreita, numa semiescuridão ofuscante, buscando presas nem sempre tão puras.

Respirar em Rio Grande sempre foi como ter os pulmões cheios de água e, ao mesmo tempo, secos como o deserto.

Mas o engraçado é que por estes dias o tempo tem estado assim, tão confuso quanto o ar: enregelante quanto a temperatura, embora muito quente quando menos se espera. E estranhamente silencioso, apesar do barulho que as pessoas e os carros que invadiram a cidade estão fazendo.

Quando amanhece o céu apresenta uma cor avermelhada, que certamente seria considerada normal, não fosse o fato de que este colorido específico pertence à outra estação do ano. Eu percebo a diferença porque moro aqui desde sempre e entendo as nuances que existem no clima e na natureza local. No entanto, de uns tempos para cá, a coisa tem mudado de figura e as estações se mostram meio rebeldes, chegando antes ou depois.

Sim, tem toda essa história de aquecimento global, de degelo das calotas polares, de poluição, etc., cientificamente comprovadas. Mas as coisas que tenho visto ou apenas pressentido quando ando pelas ruas de Big River não são fruto somente das coisas que falei, como costumam pensar os estudantes e ambientalistas daqui.

Tem algo estranho ocorrendo no céu e no subsolo riograndino. Meus ossos sentem e estremecem. Sinto no pescoço a respiração ofegante e ansiosa de algo que ainda não consegui identificar.

Hoje quando saí de casa o céu estava novamente avermelhado; de um vermelho difícil para alguém descrever. A cor escorria pelo céu de forma esquisita, enquanto o sol meio atrasado de outono começava a tomar conta do dia. As nuvens recortavam a cor enquanto deslizavam pelo ar, dando a impressão que o dia estava pingando sangue.

Eu saí para a rua sabendo que somente conseguiria voltar um tanto tarde da noite, por causa da minha profissão. Eu cavo buracos, na cidade mais esburacada que conheço, para tentar consertar estragos na rede de esgoto. 

Deve ser por isso que pressinto a diferença no ambiente riograndino. Os buracos sempre me colocaram frente a frente com os mais estranhos segredos da minha cidade. 

Cheguei ao canteiro de obras no caminhão da empresa, junto com cinco companheiros de trabalho. Eles pareciam que nunca tomavam banho, a cara besuntada pelo sol era escurecida, mas também havia um pouco de sujeira por ali. Isso se percebia pelo cheiro de suor, poeira e bebida que pelo menos três deles exalavam fortemente, os outros dois ainda tentavam disfarçar. Era difícil ver mudas de roupas diferentes sobre os corpos deles também.

Isso me dava certo nojo. Infelizmente sou daqueles que não consegue passar sem um banho e ao menos duas trocas de roupas por dia. Eu nunca me dei bem com sujeira. Não sei como acabei nessa profissão. Ou talvez saiba, mas não admito.

O buraco havia começado a ser escavado há algumas semanas. Deveria ser bem profundo, pois a empresa iria instalar uma estação elevatória de esgoto. O progresso estava chegando a Rio Grande e o lençol freático não ajudava a melhorar a infraestrutura envelhecida da cidade.

Mas a obra incomodava os moradores porque parecia nunca ter fim. Eu somente observava a cara de insatisfação dos passantes, enquanto eles observavam a empreitada que parecia nunca acabar e a nós que parecíamos nunca trabalhar.

Tinha até uma menina que costumava passar frequentemente pelo local, seja para ir para o trabalho ou para realizar sua caminhada em dias alternados. Ela olhava desconfiada para o buraco e, às vezes, resmungava que era uma aberração o transtorno causado pela obra, porque impedia o trânsito pelas calçadas, prejudicava o fluxo de veículos e a empresa ainda deixava restos de material jogado pelos cantos.

Ela fazia uma cara de nojo quando tinha que atravessar a areia solta com suas sandálias chiques e quando sentia o cheiro desagradável que vinha do chão violado. Acho que sei porque ela reclamava tanto. 

Mas o que mais perturbava a guria era a profundidade do buraco. Às vezes ela tentava ver o fundo dele, mas não conseguia e isso a deixava com uma cara gozada, misto de espanto, reflexão e medo. Acho que, assim como eu, ela acreditava que aquilo não deveria ser feito.

Então a escavação chegou a um ponto em que o lençol freático precisava ser rebaixado para que pudéssemos continuar abrindo o buraco maldito. Foi nesse dia que eu comecei a perceber a mudança mais acentuada no céu riograndino. Eu estremeci quando vi aquele tom vermelho no céu. 

Acho que a moça também percebeu porque, quando passou pela obra naquele dia, ela parou brevemente, olhou através de seus óculos escuros para o negrume do buraco e segurou com mais firmeza sua pasta de trabalho. Depois senti que ela me observava, mas não pude tentar decifrar seus pensamentos. 

É difícil ler alguém que se esconde por detrás da escuridão de um par de lentes.

Ela respirou profundamente erguendo os ombros e deixando-os caírem com se um peso imenso e desconhecido houvesse pousado sobre eles. Depois seguiu em seu passo apressado, mas agora não tão confiante, de sempre, balançando levemente a cabeça enquanto passava por mim. Tudo não durou mais de dez segundos em minha opinião. E o jeito dela pareceu confirmar o que eu pensava.

Não se devia revirar dessa forma as profundezas do solo de Rio Grande.

Por fim, o lençol freático foi rebaixado e a escavação prosseguiu por mais alguns metros. Neste dia, devido à urgência da obra (com certeza, mais em razão das reclamações dos cidadãos descontentes) iríamos trabalhar até a madrugada, revezando para descansar na cama vagabunda de um trailer de madeira que tinha sido colocado no canteiro. Servia também para que, nos intervalos, pudéssemos comer uma refeição fria e nojenta.

Foi nessa noite que a escavadeira bateu em algo sólido, fazendo um barulho de pedra contra aço. Achamos que poderia, apesar do tipo de solo existente em Rio Grande, ser uma pedra grande o suficiente para causar o barulho estranho, mas que seria removida rapidamente com o maquinário, e a obra prosseguiria rumo ao seu fim.

Para tentarmos descobrir o tamanho da pedra e removê-la, sem derrubar a frágil estrutura feita de sarrafos que segurava as paredes de areia da escavação, eu e alguns colegas descemos pela escada para dentro daquele poço escuro com pás, picaretas e até vassouras. O responsável achou por bem dirigir todas as luzes de iluminação improvisadas para o interior do buraco, ideia mais do que óbvia, em vista do perigo que existia no local.

“Eu não ganho para isso”, pensei naquela hora, sentindo um arrepio ao entrar naquela cavidade que parecia uma boca esfomeada. Lembrei da sensação que eu tinha tido quando a moça olhou pro mesmo lugar. Senti um arrepio percorrer meu corpo.

Mas retiramos o máximo de areia possível e tentamos definir onde a pedra começava e terminava. Nós varremos a terra, raspamos o ‘fundo’ do buraco em todas as direções, batendo as pás contra a superfície, que soltava fagulhas ao contato do metal, enchemos e esvaziamos baldes com terra, mas estranhamente não conseguimos delimitar o tamanho da pedra que obrigou a máquina a parar.

Decidimos então levar suportes de luz lá para baixo para verificar a situação e, se fosse necessário, interromper o trabalho até o dia seguinte (o que nos deixaria muito felizes) para que o engenheiro decidisse o que fazer. Afinal, nós éramos apenas peões e se algo desse errado durante a noite a culpa seria jogada sobre nossos ombros embrutecidos, mas sem costas quentes.

Quando as luzes foram posicionadas entendemos porque não havia como delimitar o tamanho do pedregulho. Na realidade, se tratavam de várias pedras, rejuntadas com uma argamassa muito velha, formando uma espécie de calçada ou piso.  “Talvez a gente tenha batido contra a fundação de uma dessas casas antigas e históricas que haviam sido arruinadas pela ganância”, eu estava refletindo quando um colega exclamou:

-Tchê! Acho que achamos uma das galerias secretas que tinham nos fortes aqui do Rio Grande! – disse o Zé, se ajoelhando para sentir a aspereza das pedras.

Eu revirei os olhos. Mais um daqueles!

-Se tu lesses um pouco, saberias que isso não existia aqui. O forte que tinha nessa região foi totalmente destruído. Somente na Praça Sete de Setembro se encontram alguns restos de um dos fortes e isso se a pessoa cavar bem.

-Hunf! – Zé deu de ombros e me olhou com aqueles olhos vesgos e meio desvairados que eu já conhecia a um par de anos. – Se tu lesse um pouco de outras coisas além de livros de história, tu ia ficar sabendo que muitos riograndinos acreditam que os portuga construíram galerias subterrâneas nos fortes para esconder os tesouros que roubaram dos hermanos, dos índios e dos barcos que saqueavam aqui na costa. Eles eram piratas também, ouviu? Pode bater aí, cara. Tu vai ouvir um som oco. Se isso acontecer não vai ter como negar os fatos. – Ele me disse com os olhos chispando e apontando a mão trêmula pela excitação para o chão empedrado.

-Ok, ok. Vamos testar tua teoria. – eu disse conciliador e zombeteiro.

Peguei uma picareta, bati e...

Nada. Nada de nada.

Zé me olhou com raiva.

-Tu parece uma mulherzinha batendo com essa picareta! – Ele rosnou, pegando a ferramenta das minhas mãos. Eu tratei de me afastar. Sabe-se lá o que ele ia fazer. – Tem que bater assim, ó! – Ele disse levantando a picareta e largando ela com toda força sobre as pedras.
[continua?]

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

YIN E YANG

Precisava colocar em algum lugar o que estava pensando. Não conseguia encontrar o recipiente correto e isso estava aumentando não só a urgência de se livrar daquilo que gritava em sua mente e parecia ecoar no ar, mas também a necessidade de vomitar.

Era estranho isso: sentir o vômito na garganta toda vez que queria gritar alguma coisa e não conseguia. Acreditava, ou ao menos tinha a percepção, de que quase ninguém sofria desse mal. Como explicar isso? Simplesmente parecia que, se não gritasse, iria involuntária e incontinentemente expelir uma gosma com tudo que estava pesando no estômago e no cérebro. 

As pessoas costumam sentir diferente e talvez fosse essa a forma que tinha de sentir bem ou mal estares.

No momento era uma mistura das duas sensações: era bem estar porque finalmente algo de sentimentalidade ainda existia no seu interior; e era mal estar por não saber mais como sentir os sentimentos.

O cérebro captava o sol na rua e sentia que iria trabalhar melhor. O coração via o tal corpo celeste e ficava pensando na possibilidade tangível de que seria novamente rasgado até o fim do verão.

Admitia: uma paixonite meio adolescente contribuía para isso, o que não causava em si um sentimento de elevação de sua autoestima. Ao contrário, percebia que isso bem poderia resultar em algum transtorno presente ou futuro. 

Além disso, tinha toda uma gama de responsabilidades para cuidar, portanto, devia deixar de lado os devaneios quase românticos que às vezes assaltavam seu corpo adulto e davam um pouco de conforto para seus dias mornos, por vezes, insuportavelmente tomados pela monotonia.

No entanto, bem sabia, que todo mundo precisa de um pouco de sal ou doçura em seu cotidiano, mesmo que não seja dado a ilusões ou que tenha plena consciência de que não passa apenas disto.

Enquanto isso vivia interagindo com uma gama de livros que ajudavam, seja a matar o tédio, seja a matar sua pessoa do mesmo mal. Eram livros pesados, com centenas de folhas, discorrendo sobre possíveis saídas para problemas alheios, ou contribuindo para transtornar qualquer forma de solução.

Há muito tempo já tinha aprendido que o que era tido como a resolução perfeita para as coisas se transmutava justamente na imperfeita forma de agravar o problema. 

Isso irritava sua mente, com toda certeza, que não era dada a contemplações diante do que era aparentemente injusto. Por isso, vinha tentando domar seu conceito próprio; adaptá-lo ao pensamento público e notório de que aquilo que para si era uma violação de direitos, bem poderia significar para uma grande parcela da população algo perfeitamente natural.

Então, as contraditórias sensações bem estar/mal estar digladiavam em seu interior. Nenhuma delas recuava, por isso seguia nesse vai não vai de alegria e tristeza conjugadas, porque sempre teve consciência de que isso era costumeiro em sua vida desde sempre.

Assim, persistia em carregar as duas(des)aventuranças com certa tranquilidade, pois se sabia dúplice desde que se descobrira gente na cidade gris.

A descoberta dessa esquisita duplicidade (quase um caso Dr. Jeckil, Mr. Hyde) ocorreu aos cinco anos de idade quando percebeu que seus bonecos não eram totalmente do seu agrado. Escalpelou alguns, queimou outros, condenou ao ostracismo os restantes, mantendo-os longe de si, mas perto o suficiente para, eventualmente, acarinhá-los ou torturá-los.

Se a destruição ou tortura psicológica de brinquedos estivesse entre os aspectos que definem um possível psicopata, certamente acabaria por se enquadrar nesta patologia psiquiátrica.

Contudo, parece que isso ainda não entrara para tal rol, por isso entendia que nada havia de errado com sua psique. A não ser o fato de querer guardar seus pensamento e sentimentos em recipientes ou sentir vontade de vomitá-los quando percebia um deles se insinuando em sua mente ou corpo contra sua vontade.

“Na realidade”, concluiu, “talvez essa mistura estranha fizesse fazer parte da tríade da sociopatia. Afinal, ser dúplice pode ser considerado normal? Ou o normal é ser dúplice?”

Perguntas difíceis de serem respondidas. Por isso engavetou seus dilemas. Ocultou sua esquisitice a golpes de rebenque e continuou em sua rotina sem que outros suspeitassem de suas crises de dualidade. 

Mas desenvolveu o mau hábito de acordar todos os dias às 03:56 da madruga. 

Era quando via, no canto escuro do quarto, um par de olhos flamejantes rindo um risinho nervoso de quem tinha ido dar um passeio sem contar aos pais e era flagrado justamente quando estava entrando no quarto, acreditando que tinha praticado o crime perfeito. 

Em sua frágil sabedoria decidiu nunca perguntar como eram os passeios daquela criatura desconhecida, mas estranhamente familiar.

sábado, 27 de dezembro de 2014

A TEMPESTADE

Dizem os teóricos e os residentes de certa cidade do extremo sul do país que, quando uma tempestade se aproxima, devido a carga de eletricidade que ela traz consigo, tanto os objetos, quanto os seres vivos, podem sofrer alguns fenômenos corporais ou, até, mentais.

Se esta é a expressão máxima da verdade, ou se tal teoria já foi provada cientificamente, é coisa para a qual eu ainda não vi uma resposta definitiva, seja em livros da área, seja em aulas ministradas pelos professores que destes fenômenos terrestres entendem mais do que eu.

Certamente, por experiência própria, ou por uma ou outra história a mim repassada, eu manifesto a tendência de acreditar que esses relatos condizem com a realidade; que ocorrem de fato e que, se houvesse um maior interesse em explicar esse fenômeno da natureza, causado pelas tempestades, ele já deveria constar dos livros didáticos, principalmente para que os cidadãos do mundo, e de cidades onde temporais se formam com mais frequência, pudessem estar preparados para as diversas reações físicas e mentais que a chuvarada, caindo impetuosamente pela terra, bem como fazendo explodir nos céus raios e trovões, pode causar nos seres humanos de bem, ou não, que residem nesses locais estranhamente influenciados pela maresia e ventania que açoita ruas, prédios e campos abandonados.

E para demonstrar a veracidade do que descrevo irei narrar uma situação, uma única, que comprova que animais e homens - digo homens para usar o substantivo genérico que inclui os machos e as fêmeas da espécie humana - sofrem, mesmo sem saber, a influência das monções, principalmente daquelas que se originam em tempestades formadas repentinamente e vergam a vontade de todos os seres que por elas são atingidos.

Julia era uma moça quieta, considerada por familiares, amigos e vizinhos como uma criatura meiga e prudente, digna de uma confiança quase cega por parte destes. Nunca um gesto ou ação levantou qualquer suspeita sobre seu caráter e predisposição a boa paz.

A guria vivia tranquilamente, sem grandes arroubos de sentimentalidade, além de alguns momentos em que externava uma alegria mais intensa do que seria de se esperar, ou uma tristeza mais profunda do que o necessário por aqueles que, aparentemente, sofriam alguma injustiça.

Julia era uma pessoa extremamente justa, talvez eté um pouco demais.

Apesar disso, sua família e amigos conseguiam conviver com os pequenos excessos que ela mostrava por conta desta característica.

Pois bem, num dia de forte calor que se abateu sobre o arquipélago em que vivia (alguns teóricos dizem que, na verdade, é um istmo), Julia acordou com uma leve dor de cabeça e um quebrantamento no corpo que não conseguia explicar. Achou que deveria avisar sua mãe e ficar na cama. Afinal poderia estar entrando em seu período mensal, que, geralmente, era torturante.

No entanto, contrariando sua natural prudência, embebida de uma coragem que poucos sabiam que ela ocultava, Julia resolveu enfrentar o mal estar e dar conta das suas lidas diárias. Vestiu-se com o normal aprumo e simplicidade e dirigiu-se para a cozinha, onde tomou o café preto com duas fatias de pão caseiro, como era seu hábito de guria criada sem frescuras e num Estado em que se gostava de preservar as tradições.

Quando levantou-se da cadeira, sentiu um tonteira, que fez a cozinha rodopiar diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que ouvia sons estranhos, como os compassos de uma música que, por mais que ela não quisesse, deixava uma vontade incontrolável de sair deslizando pelo ar.

Ouviu vozes, também, que convidavam Julia para dançar ao som daquela música esquisita; que diziam que ela poderia fazer o que bem entendesse que ali, naquele lugar, ninguém daria atenção para os desvarios que praticasse, nem condenariam suas ações.

Julia temeu por si, por sua sanidade e pela vida pacata em que vivia. Achou que deveria estar pior do que imaginava. E se estivesse ficando louca? Certamente, se alguém da casa descobrisse o que estava acontecendo seu destino era certo, como já muitas vezes vira acontecer.

A guria fechou os olhos com força. E repetiu para si mesma, diversas vezes, que aquilo era passageiro, que era causado pela forte onda de calor que estava recaindo sobre a cidade. Repetiu tudo isso até que sentiu que nada mais rodopiava, que a música tinha sumido e as vozes haviam se calado.

Abriu os olhos e notou que tudo retornara a normalidade. Suspirou aliviada. Em outra ocasião isso já havia acontecido, mas nunca desta forma, nunca assim tão intensamente a ponto de quase quebrar sua força de vontade. 

Julia recolheu a caneca vazia, que exalava o cheiro do café, e a faca que usou para passar a manteiga no pão. Dirigiu-se para a pia e ali depositou os objetos para lavá-los. Foi quando olhou pela janela, que se abria para o quintal que tanto gostava, onde sua mãe cultivava um pequeno jardim e algumas arvores frutíferas. Ela olhou para aquele recanto com uma alegria contida, pois amava deitar-se sobre as árvores para ler e para pensar na sua vida. As vezes ela dormia ali. Quando acordava, as vezes sentia que algum sonho estranho a tinha transportado para um lugar que ela não deveria ir. 

Nessas ocasiões, que, em geral, eram precedidos de alguma chuva, ela acordava com a boca seca, um gosto de álcool na garganta e a boca como que sugada, embora ela não soubesse pelo quê.

Afastou esses pensamentos sombrios da mente e olhou para o céu. Assustou-se. O anil que revestia a abobada estava sendo tragado por um tom escuro, cinza plúmbeo, carregado e estarrecedor. No mesmo instante, os pelos de seus braços se arrepiaram e ficaram levemente ouriçados, como se tivessem sido atingidos por milhões de pequenos choques elétricos, seu corpo sentiu a vibração dos raios e trovões que soavam ainda muito longe, o que aumentou a temperatura corporal da menina.

Já não era um mal estar que Julia sentia. Era uma vontade irresistível de sair daquela casa e dançar debaixo daquele céu nefasto e comungar com a chuva que ela, com certeza absoluta, sabia que iria desabar sobre a cidade portuária em que morava.

Nisto sua mãe entrou na cozinha,dizendo:

-Vem temporal aí, minha filha. Sai de perto da janela. Me ajuda a tapar os espelhos e... - a mãe parou de falar e observou as costas rígidas de sua filha, que estava com as mãos apoiadas na pia. - Julia, está tudo bem? - a zelosa criatura perguntou para a guria que nem um movimento apresentava.

Julia não estava ouvindo sua mãe. Ela só ouvia o som da tempestade se aproximando, a intensidade dos trovões e raios que disputavam entre si quem era o senhor do ar. E as vozes. Ela ouvia aquelas vozes que a convidavam para bailar nas poças de água, dar as mãos as gotas de chuva e se deixar levar pelo compasso de uma música que só era possível ouvir na natureza.

A mãe se aproximou da filha e tocou seu ombro com cautela.

-Julia? - chamou sussurrando, para evitar de assustar a menina, afinal já não era a primeira vez que ela via a filha naquela estranha posição.

Julia se virou calmamente. Os pelos dos braços ainda arrepiados, o coração a batucar num ritmo alucinante, o sangue a correr por suas veias com uma tal força e intensidade que ela simplesmente pedia que ele não parasse mais.

A menina encarou a mãe por um momento e baixou a cabeça, enquanto a senhora tentava acordar a filha, chamando por seu nome e dizendo que estava tudo bem, que tudo ia passar.

Repentinamente ela levantou a cabeça. A mãe deu um passo para trás, levando a mão ao peito, sobre o coração, que, neste instante, sofreu uma breve parada.

-Julia? Quem é Julia? - a moça perguntou com um sorriso zombeteiro no rosto. - Acho que ela foi dormir um pouquinho Dona Maria. - E a criatura que Dona Maria viu diante de si saiu rapidamente de perto de si, abriu a porta da cozinha justamente quando as primeiras gotas de chuva começavam a despencar com força sobre a terra ressecada.

Dona Maria viu aquela que era e não sua filha rodopiar debaixo da saraivada de água que os céus derramavam sobre o quintal até que seu vestido branco ficou totalmente encharcado. Depois disso, a aquela china desavergonhada parou um instante. Olhou para a porta da casa, onde Dona Maria havia se postado, soltou uma gargalhada e gritou:

-Não se preocupe, Dona Maria, sua filha esta bem cuidada. - A criatura abanou para a senhora que escorregava aos prantos em direção ao chão, e saiu correndo em direção ao fundo do pátio, onde pulou com desenvoltura, como se já houvesse feito isso centenas de vezes, o muro que circundava a casa em que Julia morava e era protegida.

Nunca mais Dona Maria viu a filha. Seu coração partiu-se naquele dia, mas ela sobreviveu, vivendo da vã esperança de que, na próxima onda de calor e tempestade bravia que se abatesse sobre a cidade, Julia retornasse para casa.

Dizem alguns que é comum ver nos bailes da cidade, uma menina de branco, meiga e terna, que entra sem fazer alarde, mas que após ouvir os primeiros acordes de uma música qualquer, se transmuda como uma tempestade, e vira a dona do baile, quase china sem ser de verdade.

sábado, 25 de outubro de 2014

O AZUL DA PERVERSIDADE

Estou sentado no sofá, debaixo da escada, local onde sei que muitos ficam esperando. Na minha frente uma porta está aberta para uma sala escura. Acima da minha cabeça, deslizando pela escada, escuto as notas melancólicas de um violino, fazendo meu peito se apertar.

Estou aqui sentado; aguardo o momento em que ouvirei meu nome. Então, terei que deixar esse cantinho, confortável e semiescuro, embora tenha uma porta que se abre, como uma boca desdentada e assustadora, para uma sala negra, e por sobre esse canto se apoie alguma coisa invisível e sem sentimentos.

No andar de cima o violino para de ser tocado repentinamente. Em seguida, surge uma música, rápida, meio enlouquecida. Sinto o pelo dos braços e da nuca se eriçarem e meus nervos, que parecem normais, se quebram sob a intensidade da escuridão da sala e da música que escuto.

Eu deveria fugir, mas não consigo. Estou paralisado pelo ambiente que existe aqui. Além do que, fugir para onde? A sala me arrepia, a escada me fere com seus degraus, repletos de silêncios e estalos, e a rua, bem, a rua eu pouco conheço; ela me deixa apavorado com sua claridade, seu barulho e com as pessoas que voluteiam, quase sem sentido ou direção, pelas calçadas. 

Tudo é tão confuso lá fora!

Por isso, fico sentado, sentindo o suor escorrer pelas costas, com as pernas coladas uma na outra, os braços tensos, as mãos espalmadas sobre as pernas. Elas também suam, e se eu levantar ambas contra a semiluz que vem do corredor será possível ver que elas tremem levemente.

Outra vez aquela música triste recomeça: um refrão, depois outro e outro, até que o violino silencia totalmente, depois de acabar com a última gota de coragem que eu tinha.

A hora chegou.

Uma porta é aberta. Ouço passos se aproximando da escada e o peso de um pé no primeiro degrau, que estala sob a leveza de um corpo que se aproxima calmamente. 

Na sala a escuridão se adensa. O par de pés, socados dentro de botas lustrosas, chega, enfim, ao primeiro andar, o solado batendo contra o piso de madeira, tão tranquilo e firme ao mesmo tempo. 

Arrepio.

Viro a cara para a escuridão da sala a minha frente. Eu deveria ter entrado nela. 'Seria um alívio momentâneo', penso, soltando o ar que eu havia represado nos pulmões. Chega a doer quando libero o oxigênio que conti.

Quando volto o rosto, lá está.

O cabelo preto cuidadosamente penteado para o lado, o sorriso branco e aqueles olhos – aqueles olhos onde a perversidade se oculta por detrás de uma azulada inocência.

sábado, 16 de agosto de 2014

AV. RHEINGANTZ


Como posso me fazer entender?

Contudo, eu preciso dizer que, para mim, andar pela Av. Rheinghantz é sapatear no ritmo de outra época, que já se foi certamente, mas que está tão presente quanto a maresia que sopra sobre a cidade.

Eu gosto de olhar as casas do antigo complexo industrial; casas que abrigavam os mestres, engenheiros ou operários que trabalhavam na antiga fábrica de tecidos. Gosto da velhice desses casarios, do seu estilo alemão e das figurinhas esculpidas nas janelas de madeira maciça, que são os olhos dessas habitações que têm um som de coisas quase esquecidas.

Por esse simples motivo eu não me importo de esperar aqui no umbral da garagem de uma casa mais moderna e, creio desabitada, enquanto despenca uma chuva fininha, requentada, sobre a pista de rolagem desta antiga Avenida. Aguardo pacientemente o começo da apresentação, que vai ocorrer numa das casas de arte de Rio Grande, observando essas casinhas, tentando imaginar quem já viveu, ou vive hoje, nelas.

Gosto de tentar recriar as histórias, verídicas ou não, que elas contêm. Aprecio ver as rachaduras nas suas paredes, os fiapos de capim crescendo entre elas, testemunhas do quase abandono que essas sentem recair sobre si; ou ver as reformas que seus atuais habitantes fizeram e como isso transformou a alma dessas habitações.

Noto que existem duas delas que estão à venda. Uma, num aglomerado de casinhas geminadas, com corações esculpidos nas janelas, que são seus olhos para o mundo de fora. Outra, mais imponente entre as demais, com pátio próprio, telhado resistente, para proteger moradores e sombras das intempéries que acometem a cidade gris, tão acompanhada e solitária ao mesmo tempo, com seu ar de seriedade austera, como teriam seus proprietários originais.

Concluo que eu bem poderia morar numa dessas duas casas, independentemente do estado em que se encontram.

Eu poderia morar nelas ou num estábulo, desde que eu conseguisse sentir que pertenço ao lugar e tivesse êxito em conferir um pouco de dignidade ao local. Porque, no fim das contas, dignidade é algo que se pode encontrar num barraco de chão batido e escapulir de um palácio, ou vice versa.

Mas eu poderia viver em qualquer lugar: no interior ou na capital, numa vila ou no centro da cidade; bastaria apenas possuir este sentimento de que pertenço a algo ou a alguma coisa.

Estranho isso, estar sem se colocar ou se sentir colocado, sendo e não sendo parte do que te rodeia.

Dizem que esta sensação acomete aquela classe de seres humanos conhecidos como cosmopolitas: pessoas que pertencem ao universo; vivem bem em qualquer lugar e convivem naturalmente com todos os seres, inclusive bichos de estimação com tendências neuróticas.
Entretanto, penso que essa cosmopolidade, que para alguns cai muito bem e é natural, pode descambar para um sentimento, mesmo que efêmero, de desprezo pelo resto da humanidade que não consegue se adaptar a idade contemporânea, com seu desapego por tudo e todos. Afinal, se tu és parte do cosmos, um cidadão do mundo, ou do universo, como aceitar que outros não possuam as mesmas condições de adaptação?

Portanto, creio que não. 

Eu poderia viver em qualquer lugar, sob a singela condição de que ali, naquele ambiente eu sentisse essa coisa, que as pessoas comuns sentem, de pertencer ao lugar em que estão.

Por isso, não sou cosmopolita. 

Sou aquele que está sem nunca estar; o que fica sem conseguir permanecer muito tempo no mesmo ambiente. Sou apenas alguém que deseja a normalidade das pessoas que pertencem a algo, mesmo tendo consciência de que nunca obterá esse estado de espírito.

Assim, me despeço das casas que poderiam ser minhas, mas não serão. A peça teatral vai começar.


Tenho quase certeza de que a tragicomédia bem poderá retratar os desencontros em que vivo, durante os passeios noturnos que faço por esta cidade cinzentamente colorida.

domingo, 25 de maio de 2014

CAMUFLAGEM*

Caminha entre errantes.
O cérebro meio vivo
anda no meio da maioria vegetante

Caminha com roupas fedorentas 
e meladas de ferro vermelho
amortecendo a humanidade 
que em si ainda existe

E eles andam andam andam
- Oh! Deus, como andam! - 
incansáveis em seu rumo perdido
buscando saciar aquilo que não sentem.

São a horda que sobrepuja 
a minoria em cujo peito algo pulsa.

E o cérebro meio morto 
caminha caminha caminha 
-Por favor, que os joelhos suportem a jornada! - 
entre os errantes.

Prefere a camuflagem da meia morte
do que a companhia daqueles que dizem pensar
mas abocanham ferozmente os viventes 
que ousem demonstrar 
aos humanóides que ainda é possível sentir.

*Série Poesia Zumbi.