terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

AGORA É MINHA VEZ


Tem gente que diz que eu escrevo bem. Eu acredito que, às vezes, consigo criar algo bom de se ler.

Por isso informo que ainda há alguns exemplares, tanto na Livraria Vanguarda, quanto comigo, do meu segundo livro "Estranhamento".


Eu realmente gosto muito desta capa.
Quem tiver interesse procure a dita livraria ou entre em contato pelo face.

Abração.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CURTINDO O LIVRO "POETAS DE PIJAMA" II


CURTINDO O LIVRO
“POETAS DE PIJAMA”: BREVE COMENTÁRIO
Parte 2: Textos Literários
Polifonia: Tamiris Machado Gonçalves – p. 15: Poema suave que retrata as influências que a poeta recebeu em sua escrita. Todos os escritores se identificariam com a beleza e simplicidade destes versos, pois todos têm vozes interiores que vem de outros escritores e ‘outros de nós’ que dão o tom de nossos escritos. Excelente título também. Muito bom, Tamiris.
Embriaguez: Jéssica Dias de Souza – p. 26: em minha modesta opinião, escrito no estilo prosa poética. Muito interessante porque o tom do escrito é comedido, mas nas linhas se pressente a intensidade de sentimentos que a autora nutriu, o que, muitas vezes, consegue atingir o leitor mais do que um texto que seja totalmente intenso, mas que se extingue como um fósforo ao acabar seu combustível. Gostei do mistério também. Parabéns, Jéssica.
 Mãe, não quero férias!: Vanessa Cardosos Barrientos – p. 39: descrição vívida dos sentimentos e pensamentos de uma criança que, pelo que entendi, possui alguma espécie de deficiência mental. O medo do protagonista, principalmente com relação ao significado distorcido do termo férias, é tão intenso que não há como não se identificar, assim como não sofrer pelo preconceito que ele entende que sofre. Prosa muito bem construída. Excelente, Vanessa.
Rupturas: Gilliard Avila Barbosa – p.44: poema escrito em estilo mais clássico, mas impossível de não agradar, tanto pelo ritmo que possui, que me lembrou um pouco Camões e Shakespeare, referências importantes na literatura mundial, mas principalmente pela forma como o poeta usou as figuras de linguagem para retratar a ruptura, a dor que suas palavras causaram na personagem, levando que um futuro em comum se tornasse passado. Gostei muito, Gilliard.
Mundo: Mauro Nicola Póvoas – p. 55: poema crítico-romântico, se é que se pode dar essa denominação, com uma simplicidade que cativa. Além de tecer críticas sobre a tecnologia, conduz o leitor a perguntar sobre o que seria a salvação para tantos desnorteios mundiais. Para o poeta é o amor. Quem sabe não seria para todos... Muito bom, Mauro.
À Moda Antígona: Andréia Alves Pires – p. 59: Totalmente inusitado e criativo. Um daqueles contos que mexem com a cabeça do leitor e fazem refletir se o que está escrito é o que realmente parece, ou se há algo mais nas entrelinhas. Instigante, dá uma sensação de pânico e, ao mesmo tempo, um furor para continuar lendo porque faz uma análise bem profunda do ser humano falante ou ouvinte e da influência que o mundo atual trás sobre os sentimentos. Excelente, Andréia.
Uma Mentira Silenciosa: Matheus Bandeira de Carvalho – p. 95: é quase impossível expressar o barulho que o silêncio faz. Mas acredito que Matheus foi muito feliz ao escrever esta crônica, que caracteriza algo que parece instransponível. A frase que me impactou? “Mas, daí, parto do princípio que o silêncio é confundido com o descaso dos ouvidos exaustos”. Ao que algo em mim ecoou, mas não em resposta: “Eu só sou eu quando em meio ao barulho do silêncio que abarcou toda minha vida”. Excelente Matheus.
O Melhor Remédio: Lilian Gonçalves de Andrade – p. 114: uma trama psicológica intensa e arrepiante. Um thriller policial dos melhores que já li nas crônicas desta cidade. Fiquei sem fôlego ao submergir no universo da dra. vingativa criada por Lilian. Nada resta a dizer, senão: Somente quem ler o conto conseguirá entender o quanto este ele é instigante. Parabéns, Lilian.
Estilística: Mitcheia Guma Pinto – p. 119: um bom exemplo de um poema que fala de sensualidade, seja da que vem do ato de escrever, seja da que surge em decorrência de uma paixão. Nada mais precisa ser dito. O poema fala por si. Muito bom, Mitcheia.
Entrega: Mayara Floss – p. 167: eu segurei o leme do navio e me tornei o capitão da crônica escrita por Mayara, pois ela conseguiu falar do mar e dos homens que ali laboram, dos seus sentimentos e desejos. E como não se identificar com tal personagem, visto que muitos de nós nasceram e cresceram numa cidade portuária? Amo esses dois temas e, por isso, amei o texto como o capitão que se entregou ao mar porque o amava e já era a hora de voltar para seu amor. Excelente, Mayara.
Outros textos eu também gostei e escrevi no próprio livro sobre minhas impressões. Mas aqui comentei, como eu disse antes, os trabalhos com os quais mais me identifiquei.  
Certamente, outros lerão a Antologia “Poetas de Pijama” e também sentirão a força dos textos que a compõem e, assim desejo, irão também tecer seus comentário, com certeza ainda melhores e mais expressivos dos que os que aqui eu simplesmente lancei ao léu.
Parabéns a todos que participaram desta empreitada. Que outras obras, sejam em conjunto, sejam individuais, possam ser produzidas, para que os leitores daqui e de outras cidades possam conhecer o excelente trabalho que os colegas realizam na cidade.
Adriane Dias Bueno, leitora ávida.

CURTINDO O LIVRO "POETAS DE PIJAMA


CURTINDO O LIVRO
“POETAS DE PIJAMA”: BREVE COMENTÁRIO
Parte 1: Capa e Cartuns
Eu adquiri o livro tema deste post na 40ª Feira do Livro do Rio Grande/RS com grande expectativa, pois alguns trabalhos literários de alguns colegas de escrita noturna eu já conheço e aprecio, bem como desejava conhecer outros de quem ouvi falar.
Além disso, sei que na nossa terrinha tem muito talento escondido, que não é divulgado ou objeto de comentários porque aqui pouco se fala sobre os artistas da terra (com algumas exceções, claro) e um dos meus objetivos neste blog é (dentro dos limites do tempo dedicado as minhas outras atividades) tentar divulgar um pouco da cultura riograndina pelo ‘mundo’ afora.
Aqui pretendo comentar os autores com que mais me identifiquei. No entanto, já deixo registrado que todos os autores e cartunistas, e/ou desenhistas, que participaram do projeto estão de parabéns, visto que se não tivessem talento os organizadores do livro não teriam escolhido os mesmos para estarem nesta Antologia riograndina que, acredito, foi uma das mais bem sucedidas dos últimos tempos, talvez a mais, pelo fato de abraçar tantos estilos diferentes, sem permitir que alguma espécie de ‘preconceito estilístico’ interferisse nas escolhas.
Em função disso parabenizo todos os escritores e cartunistas que tiveram suas obras selecionadas, bem como o bom e exaustivo trabalho que os organizadores tiveram para por em prática um projeto tão audacioso para os padrões da terrinha.
Agora vamos ao que interessa: os comentários sobre o que vi e li.
CAPA e CARTUNS:
A Capa do livro, um dos elementos que os escritores sabem que tem que ser bem construída, seja para convidarr os leitores à leitura (isto é o que considero mais importante), seja para que o livro possa vender, está muito legal.
E quando digo legal não é para dizer que é um desenho que condiz com o tema do livro, o que é óbvio, mas porque o artista que a produziu, Wagner Passos, fez um trabalho muito bonito, com as características marcantes de suas obras, que muitas vezes já apreciei numa certa livraria da cidade.
Ele traduziu perfeitamente as noites insones dos escritores, não apenas pelos trabalhos acadêmicos, mas também pelo prazer que sentem em escrever na calada da noite, onde o barulhento silêncio convida a por no papel os sentimentos e as visões de mundo que os escritores do livro possuem.
O que gostei da capa é a pureza quase infantil, pois Wagner trabalha muito com a área de desenhos e histórias infanto-juvenis, sem, contudo, deixar de atrair jovens e adultos, pois o desenho retrata o universo dos acadêmicos em seus estudos noturnos, o que muitas vezes aconteceu comigo na minha época de faculdade. Portanto, a capa cativa de pronto e por isso merece todos os elogios possíveis.
Os Cartuns também foram muito bem escolhidos, divulgando os blogs dos artistas e mostrando um pouco deste universo que aqui na City é quase desprezado pela maior parte das pessoas ditas intelectuais e pelos leitores.
Além disso, os cartunistas, ou desenhistas (desculpem a falta de utilização do termo exato, mas é porque não sei diferenciar uma coisa da outra, mas aceito explicações dos colegas da área), produziram trabalhados que envolviam a atividade de escrever ou desenhar, casando perfeitamente com o livro.
Os trabalhos escolhidos demonstram que existem vários artistas nesta área na cidade que precisariam ser melhor divulgados.
Os cartuns ou desenhos com que mais me identifiquei foram os que seguem. As frases entre aspas são os comentários que anotei sobre o que senti ao vê-los:
Rafaela Silva – p. 20: “Muitas vezes, não só na faculdade, mas hoje em dia também, me vejo na mesma situação, observando o mundo através da janela e catando restos de palavras para escrever alguma coisa insensata”. Esse o sentimento que este cartum me despertou e escrevi no livro. Parabéns, Rafaela.
Lidiane Fonseca Dutra p. 42: “Não sei o que dizer. Tu me perturba e me fascina. Eu poderia ficar horas te olhando e mesmo assim não conseguiria te definir plenamente ou descobrir tudo o que tens ou não a dizer”. Sinto muito Lidiane, amei o desenho, mas não sei explicar o que ele me causa. Parabéns.
Diogo Soares Dornelles – p. 64: “Droga, alguém conseguiu descobrir meu esconderijo e tirou uma foto de mim, nas minhas atividades noturnas suspeitas”. Eu me vi neste desenho. Muito bom, Diogo. Parabéns.
Everton Soares Cosme – p. 74: “Retrato vivo de quem ainda gosta de um bom lápis, seja para desenhar, seja para rabiscar letras confusas”. Excelente Cartum. Parabéns, Diogo.
Rosali Alves Colares – p. 102: “Ah! Eu sempre quis a liberdade das tuas asas...”. Bonito Cartum. Parabéns, Rosali.
Esta a minha franca opinião sobre esta primeira parte do trabalho realizado para disponibilizar a Antologia “Poetas de Pijama” ao público. Na próxima parte falarei dos textos que mais me interessaram.

BOVINOS



Segunda de Carnaval. Nada que seja útil na TV. Na cidade, somente samba de boa ou má qualidade. Graças a Deus os desfiles foram transferidos pro Cassino, assim não preciso escutar os batuques desajeitados que eram tocados perto da minha casa.

Mas, mesmo assim, o povo correu pra lá. Quer participar da festa popular mais agitada do país. Povo é assim. Gosta de pão e de circo, como nos velhos tempos. Nada contra, todos têm direito de escolher o circo que preferem.

No entanto, o que fazem ‘os desolados’ que não gostam de festas populares ou delas não participam porque não querem? Ficam sem qualquer divertimento? Ficam sem ter o que fazer, embora gostem de música e diversão tanto quando ‘o povo’?

Que nada! Todo bovino tem suas características próprias, seus gostos e preferências.

Eu fico em casa, escutando minhas músicas, vendo meus filmes, lendo meus livros, sentindo finalmente um pouco da tranquilidade que surgiu em meu bairro depois que o circo alheio foi levado pra outro lugar.

Contudo, eu também sou gado. Talvez com um gosto um pouquinho mais requintado, talvez um pouquinho mais pseudo-intelectualizada. Sou de uma raça diferente de gado, mas ainda sou. E tenho o meu próprio estilo de pão e circo, e nem sempre civilizado também.

Cada bovino tem o direito de escolher como quer ser feliz, embora possa fazer uma péssima escolha.

Pena que, às vezes, alguns acreditam que tem o dever de escolher pelo gado, que supostamente não pensa, o que melhor lhe serve como pão e circo.

Por isso eu sempre concordo com Zé Ramalho, esteja ele criticando ou não:

“Eh, oh oh
Vida de Gado
Povo marcado
Eh
Povo feliz”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PROVE QUE VOCÊ NÃO É UM ROBÔ

Com certeza aquela frase em destaque na tela do PC era uma das que mais o estava angustiando atualmente quando ele precisava realizar qualquer ação no ciberespaço, onde se recreava e também exercia a maior parte das suas atividades profissionais.

A frase fonte de sua angústia, segundo sites de hospedagem de páginas e redes sociais, servia para proteger os proprietários dos sítios e blogs dos ataques de vírus virtuais que roubavam dados do PC hospedeiro, causando sérios danos ao usuário da rede. Contudo, a bem da verdade ela lhe causava mal estar, desassossego. MEDO.

No começo ele não compreendia de forma clara porque tinha essas sensações quando via aquelas palavras surgirem diante de seus olhos. Mas hoje, de alguma forma, um indício do que poderia ser havia surgido em sua mente hiperventilada e ele entendeu qual a fonte do receio.

A maldita frase levantava um questionamento e gerava uma dúvida que era exposta de forma indecente em suas letras pretas grifadas em negrito na janela aberta dos sites que ele visitava. Isso transtornava suas emoções, em geral já agitadas, porque o fazia refletir, perguntar se ele seria capaz de provar que não era o que ela infirmava ou que era o que ele acreditava ser.

"Prove que você não é um robô".

Um simples frase, absurda na maneira como era formulada e na ordem que continha. No entanto, as palavras faziam com que ele ficasse sempre alguns segundos a meditar e a dizer para si mesmo:

"Eu sei que não sou. Mas como comprimir esses botões para reproduzir o 'captcha' prova isso 'pra eles', se até robôs podem ser programados para apertarem teclas?"

Percebeu, então, que a oração que via era afirmativa, indutiva e, provavelmente, criada para fazer o leitor respondê-la mecanicamente. Entretanto, ele não era mecanicamente programado; sua mania de questionar o levava a tecer pensamentos e teorias desconcertantes que contribuíam para que ele ficasse ainda mais desconfortável com aquela situação.

Isto transformou seus dias, antes calmos e rotineiros em sua agitação convencional, numa enxurrada de dúvidas, desconfianças, calafrios e teorias conspiratórias que estavam quase afetando sua sanidade. Se é que ele possuía alguma. Chegou a um ponto em que, o simples fato de chegar perto do micro, já fazia seu estomago embrulhar. 

Não conseguia encarar aquele comando e respondê-lo sem sentir-se totalmente desprotegido, quase como se estivesse nu diante de uma platéia que o olhava e o ridicularizava por seus receios infantis.

Mas ele necessitava prosseguir. Por isso, digitava os símbolos o mais rápido possível para poder continuar com suas tarefas tentando assumir uma posição equidistante de tudo aquilo.

No entanto, e como de praxe acontece, toda ordem indutiva e toda dúvida silenciosa, quando conjugadas, acabam gerando reações inesperadas, contundentes e conflitantes entre si.

Assim, a frase simples quando lida, e que se tornou sua grande dúvida existencial, destravou algum mecanismo de defesa psíquico em seu cérebro, antes fortemente protegido, e o fez lembrar do que havia soterrado sob toneladas de escombros de sua memória.

Lembrou nuvens deslizando rapidamente pelo céu. De um dia de chuvisco cinza em Big River. De um estrondo. Da cor vermelha se esparramando no chão e de dois manequins destroçados em meio a pista de rodagem da Br 392. Recordou que não conseguia lembrar de nada, exceto que era alguém que um dia estava enfrentando a estrada molhada e, um mês depois, parecia que tinha acordado e não sabia mais nada do que tinha acontecido no intervalo de tempo entre a pista escorregadia e alguma coisa batendo.

Rememorou que alguém lhe tinha dito que ele era casado e tinha um filho, mas achava estranho chegar em casa e não encontrá-los: nem  esposa e filho, nem fotografias. E isso lhe trazia ao nariz o cheiro quase palpável de pneus queimados misturado com vômito e odor de uísque.

Depois, depois não sabia explicar direito o que vinha, a não ser um mal estar imenso e a sensação de culpa por alguma coisa que havia perdido.

Enquanto pensava nisso tudo, no micro, lá estava a horrível frase:

"Prove que você não é um robô".

"Prove que você não é um robô".

"Prove que você é um robô".

Ele chegou a conclusão de que deveria ser um, por isso não conseguia digitar a palavra chave para postar naquele blog. Sentiu sua personalidade se desfazer por completo, ouviu seu corpo ecoando estalidos, rangidos de ferro contra ferro e seu cérebro produzindo sua linguagem através de informações codificadas em bites e pixels.

Ele segurou firmemente os braços da cadeira em que estava sentado, começou a hiperventilar e suar copiosamente. Levou a mão ao peito sentindo a pulsação estranha e uma dor terrível se espalhando pelo tórax, pressentindo que ele ia explodir a qualquer segundo e mostrar seu interior repleto de fios, conexões, tubos e chips. Emitiu um grito alucinado que escapou por sua garganta e... 

E então, ele acordou assustado, levantando de supetão a cabeça pesada. O corpo empapado de suor, mas preservado, o coração batendo seu descompasso humano, uma pequena poça de baba sobre a mesa onde sua cabeça caíra naquele sono cheio de pesadelos de recordações sem sentido.

Ele se levantou, percebendo o desconforto de ter dormido naquela posição inadequada toda a noite percorrendo o seu corpo. Por isso esticou seus membros e seus músculos relaxaram um pouco. Sentia dor no cérebro bastante acentuada.

Observou que a frase ainda estava grifada na tela do PC: "Prove que você não é um robô".

Ele meditou por um segundo. Depois estendeu lentamente seu braço e desligou o computador. Pegou sua jaqueta de couro e sai para a rua. Iria caminhar e sentir o sol ou a chuva em seu corpo frágil.

Enquanto caminhava sentia o prazer de ouvir seu coração batendo naquele compasso regular, como a máquina de um relógio, sem cordas: uma batida, um fluxo de sangue, outra batida e outra corrente do líquido vermelho chegando aos vários órgãos de seu corpo. Colocou a mão sobre o peito, sorrindo aliviado. 

Foi quando ele ouviu o som quase inaudível e descobriu a verdade.





sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CANIBAIS


Moscas
Mosquitos
Baratas
Ratos
Cupins
Traças e percevejos
Saiam dos seus berços.

Não essa não é aquela música dos Titãs
É apenas um chavão, um clamor
para que os insetos
venham comer esse mundo cão
Clichê que eu não sei porque foi criado
pois o cachorro não tem culpa 
deste universo desengonçado.

Me desculpem a redundância
mas o bicho na realidade é o que se diz humano
que rosna, morde, aniquila
depois lambe as próprias feridas 
sem aceitar responsabilidade
sem respeitar liberdades, 
cuspindo no prato que comeu
mesmo com a boca lambuzada da gordura
de todos aqueles outros que canibalizou.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O CÃO

Todas as estradas acabam se comunicando umas com as outras, conduzindo a constatação de que as variáveis são múltiplas, mas as respostas sempre levam a uma mesma conclusão: todas as rotas se encontram, seja no extremo sul do estado, seja na capital.

E foi numa dessas rotas, antes desconhecida para si, que ela se defrontou com algo singular: um cão. Um simples cachorro que apareceu repentinamente na estrada. 

O bicho era esbelto, com um corpo elástico que somente os animais do campo, ou selvagens, possuem. Ele era uma mistura de vira-lata e galgo, o que fazia com que o cachorro parecesse bem simpático.

Seu pelo era cor de caramelo, com uma grande mancha branca que descia do pescoço em direção a sua barriga. Tinha olhos castanhos. Esboçava uma espécie de sorriso na boca, como se fosse um adolescente que gostasse de fazer bagunça em meio ao verde da mata que existia na localidade em que ele habitava,não por vontade própria,mas porque alguém,seu dono, o levara para lá. Estava com o pelo levemente molhado, como se tivesse nadado em algum riacho oculto pela vegetação. 

Todas essas pequenas e, talvez acertadas conclusões, ela tirara no breve instante em que o vira quando ele apareceu na BR 116, nas proximidades do cidade de Morro Reuter. 

Simplesmente o cão desceu um alto barranco, surgiu no micro-acostamento da estrada e ali ficou, olhando para o meio do matagal, com um ar meio de deboche, meio de expectativa, como se estivesse esperando quem ele deixara para trás. 

Ele pouco se importou com o trânsito um tanto intenso naquele final de tarde de domingo; estava mais preocupado em vigiar a trilha pela qual saíra do meio daquela vegetação exuberante para ver se quem o acompanhava chegaria em breve ou se, mais uma vez, ele tinha sido mais ágil e esperto e despistara seu amigo ou amiga.

Ao observar aquela cena, que transcorreu em frações de segundos, ela a achou tão bela, tão encantadoramente bucólica,o que lhe remetia a sua infância,que lastimou não ter tirado uma fotografia da expressão daquele belo cão esperando pelo seu companheiro de aventuras, fosse ele humano ou um outro cachorro "de mato" feliz com a liberdade que podiam usufruir naquele pacato recanto do mundo.

Mas não foi possível parar o veículo em que viajava naquele lugar. Além disso, certamente, o cão fugiria ao ver sua aproximação. Assim ela se conformou em guardar aquela imagem em sua memória,na gaveta das cenas que lhe evocavam emoções profundas. 

E a viagem prosseguiu, com ela sentada no banco do carona, o que lhe possibilitava ver todos esses pequenos e grandes detalhes da paisagem que ia ficando para trás,a medida que a viagem prosseguia. 

Cerca de um quilômetro adiante do ponto onde encontrara o cachorro, que tanto lhe despertara curiosidade e uma bela fotografia mental, ela reparou em uma pequena muda de roupa cor de rosa pendurada em um arbusto a beira da estrada. 

"Parece ser de criança",pensou. "Porque, com tanta gente precisando, as pessoas desperdiçam o que têm?" questionou-se, sabendo que não teria uma resposta satisfatória para a própria pergunta. 

Ao mesmo tempo que se perguntava sobre o desperdício percebeu um sutil rastro no lado contrário da pista e um ponto da vegetação levemente machucado, pisoteado, como se algo tivesse sido arrastado por ali a força. Mas foi algo tão rápido que,a princípio,não lhe causou maiores impressões e ela logo esqueceu a roupa cor de rosa e a trilha recém aberta na mata.

Por fim, conseguiu chegar a Porto Alegre e ao hotel em que ficaria hospedada naquela noite até que pudesse retomar,no dia seguinte,a viagem até sua terra natal,e na qual chegaria através da Br 392. Foi encaminhada para o seu quarto, tomou um banho para que a poeira que se grudara em seu corpo escorresse pelo ralo.Deitou-se e dormiu como uma pedra até as 8h da manhã.

Acordou com a imagem daquele cachorro na mente e sorriu. Cenas bucólicas sempre lhe causavam vívidas impressões. Pensou até em escrever algo sobre o que tinha visto. Já tinha até um possível início para a história.

Depois de se vestir, desceu para tomar o café e dar uma olhada nos jornais, antes de prosseguir a viagem. Quando se sentou viu a primeira página do jornal mais prestigiado do seu estado e,para sua surpresa, lá estava ele, o cão,com seu belo corpo, sua pelagem bonita e seu sorriso maroto.Ela sorriu brevemente e pensou: "Que coincidência!"

Foi nesse instante que ela percebeu o restante da cena que fazia parte da foto: em uma mesa, exposta com certo mal gosto e grande crueza,uma enxovalhada e pequena peça de roupa cor de rosa; ao lado desta, uma faca de caça e uma camisa sujas de sangue,bem como uma corda enrodilhada, como uma serpente prestes a dar o bote.

Ao lado do cão estava postado,em pé, com as mãos para trás, possivelmente algemadas, um jovem de cerca de vinte e poucos anos, branco, loiro, de olhos claros, com um rosto angelical de tão belo. Estranhamente, ele aparentava esboçar o mesmo tipo de sorriso de seu amigo de quatro patas.

Ela lembrou do rastro sutil que havia visto na estrada.Sentiu um calafrio subir por suas pernas e chegar a sua nuca, arrepiando os pelos dos braço e o cabelo de seu couro cabeludo quando observou os olhos do rapaz que fazia par com seu cão sorridente.

A manchete dizia: "Polícia Civil e Militar prendem jovem que vinha aterrorizando o interior, por sequestrar, violentar e matar cruelmente meninas com roupas cor de rosa. Ele usava seu cão para atrair as vítimas".

Ela preferiu não ler a notícia na íntegra,mas ouviu dizer que o criminoso alimentava o animal com pedaços de suas vítimas.

Ela sentiu uma bola subir até sua garganta. Agora aquela imagem linda estaria maculada em sua mente até o fim de seus dias. No fim, aquele cão não era tão inocente quanto ela acreditara.